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Actualizado às 10:52 PM, Nov 19, 2019

Star Wars: os herdeiros de Darth Vader somos nós

Destaque Star Wars: os herdeiros de Darth Vader somos nós

«Star Wars: Os Últimos Jedi» (2017) promete não ser um filme consensual, mas é um ‘mal’ necessário numa saga em renovação. A Galáxia é a mesma, sim, só que este é um mundo novo.

A saga de Star Wars continua a sua procura incessante pelo herdeiro do icónico vilão Darth Vader, mas o seu maior erro é insistir em procurá-lo no grande ecrã. Os herdeiros da personagem – com a inesquecível voz de James Earl Jones – estão sentados na sala de cinema. Ou do outro lado do ecrã a ler este artigo. Somos nós, espectadores, fãs de Star Wars e do seu legado, que continuamos a esperar que um novo vilão se levante com firmeza para desafiar a Força. À altura de Darth Vader. E, por mais que os ‘candidatos’ se passeiem à nossa frente, trocamos olhares insuspeitos e soltamos gargalhadas quando Kylo Ren (Adam Driver) lá mete mais uma alfinetada malsucedida. O problema de Kylo Ren é simples: não o tememos.

A construção do malfadado vilão é penalizada sobretudo em dois momentos: no argumento, que o apresenta como um instrumento para servir uma finalidade e, assim, transborda numa personalidade superficial; e nos epílogos da ação, alguns furos abaixo daquilo que foi feito por outras figuras impiedosas da saga. O próprio Adam Driver, que esteve genericamente bem no episódio sete, parece aqui um holograma de si mesmo – uma espécia de pessoa presente-ausente e teimosamente inconsequente. Mesmo quando acerta com a narrativa, e assim define o rumo que a nova trilogia vai tomar, Kylo Ren assume-se como um mecanismo para encaixar o filme na sua conclusão, que abrirá portas ao episódio nove, teimando em camuflar a sua individualidade enquanto personagem.

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Não há algo que defina o rumo. É este que, sendo incontornável, força as atitudes das personagens: não acontece por consequência da interação em cena, mas são elas que interagem para o tornarem possível. Se um construtor preparar primeiro o início e o final do percurso que se propõe a concretizar, corre o risco de, ao aproximar-se da reta final, ter de ‘aldrabar’ os caminhos para acertar com aquilo que planeou. É esta a sensação que fica depois de se ver «Star Wars: Os Últimos Jedi» (2017). Assim como no caso do vilão, exigia-se, ou devia exigir-se, mais, mas este é principalmente um problema da forma como a história nos é apresentada, e não tanto da construção imagética e sonora em que mergulhamos em mais de duas horas e meia de filme. Estamos perante uma experiência cinematográfica provavelmente inigualável, mas somos ‘adormecidos’, a espaços, pelas storylines secundárias, que se multiplicam e terminam demasiado rápido.

Ainda é cedo para perceber, factualmente, como os espectadores vão reagir às opções narrativas tomadas por «Star Wars: Os Últimos Jedi» (2017), que estreia amanhã, 14, nos cinemas. O hype é inevitável, bem o sabemos, mas com ele carrega expetativas a que é difícil corresponder. Rian Johnson, que realiza e assina o argumento, é ambicioso, só que deixa transparecer em demasia que está ‘verde’ para estas andanças. Trata-se, afinal, da quarta longa-metragem da carreira, encetada com o independente «Brick» (2005), ao qual se seguiram «Os Irmãos Bloom» (2008) e «Looper – Reflexo Assassino» (2012), com três episódios de «Breaking Bad» pelo meio. Para saborear totalmente esta incursão assinada por ele, que vem de um universo bem mais ‘light’, é preciso desprendermo-nos um pouco da nostalgia que ainda nos liga aos mágicos anos 70. O que nem sempre é fácil, nomeadamente quando há um ritmo mais suave, desprendido e os acontecimentos são em maior quantidade e mais efémeros. Não é à velocidade da luz, mas quase.

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A fraqueza, sempre ela, para equilibrar a força

“Luz. Escuridão. Um equilíbrio”. “É bem maior do que isso”. O diálogo, aparentemente simples, reúne em si a ideia central de «Star Wars: Os Últimos Jedi» (2017) e, consequentemente, a de toda a franquia. Assim como cada moeda tem dois lados, também o Bem coexiste sempre com o Mal, num (des)equilíbrio permanente, sendo pelas escolhas que se percebe onde mora cada um dos personagens de Star Wars. Mas isto nem sempre é claro. Foi, aliás, deste conflito interior que nasceu um dos vilões mais emblemáticos da história do cinema: Darth Vader. E é também por isso que, na nova trilogia, se instalou uma certa desconfiança acerca de Luke Skywalker (Mark Hamill).
O final de «Star Wars: O Despertar da Força» (2015) colocou Rey (Daisy Ridley) na presença de Luke, deixando os fãs na antecipação do que os esperava. Parte da esperança da Rebelião sempre residiu nos Jedi, desde os primórdios da saga, pelo que é inevitável encontrarmo-nos, uma vez mais, neste lugar-comum. Rey não sabe ao certo de onde vem – são muitas as teorias acerca dos seus pais –, mas sabe para onde vai, e quer levar Luke consigo. Sem Han Solo (Harrison Ford) em jogo, e com Leia (Carrie Fisher) fragilizada, resta às novas personagens – introduzidas em 2015 –, como Finn (John Boyega) e Poe (Oscar Isaac), reclamar para si parte da responsabilidade. Em contrapartida, e como o Bem é acompanhado do Mal, também a Primeira Ordem tenta exterminar a pouca Resistência que ainda encontra, de forma a ser bem-sucedida onde Vader falhou.

Por mais que os diferentes envolvidos apregoem o poder da Força, este é um filme que prioritiza as fraquezas, decorrentes muitas vezes das escolhas – ou da necessidade de escolher – das personagens. Star Wars pode estar a anos-luz de distância, mas colide, como qualquer um de nós, na inevitabilidade do ser humano fazer asneiras. Vimo-los na primeira e segunda trilogias, e vemos isso novamente com estrondo em «Star Wars: Os Últimos Jedi» (2017). É na sequência de todos os pontos fracos que a Força se torna mais urgente, quer como sinal de esperança, quer como resposta a situações de verdadeira calamidade. Da mesma forma, também este filme mais ‘low profile’, que estabelece uma narrativa próxima de «Star Wars: O Império Contra-Ataca» (1980), é uma ponte essencial ao equilíbrio entre o episódio sete e o nove.

Deste modo, e também pelo que representa, este não é um filme mau. Não sendo um filme genial, «Star Wars: Os Últimos Jedi» (2017) é um ‘mal’ necessário para a continuidade da saga e, como se esperava, deixa as cartas em cima da mesa para o final da presente trilogia, anunciado para 2019. Para que o ciclo permaneça em movimento, e se renove, é preciso que o passado dê lugar ao futuro – sobretudo com o falecimento de Carrie Fisher, a eterna princesa Leia, em dezembro de 2016. O ponto final – que anuncia uma nova era – está, desde logo, explanado no título do oitavo episódio – Os Últimos Jedi –, ainda que reúna pistas indecifráveis à partida e que, apesar da previsibilidade, deixam sempre algum espaço a mais um ‘twist’. Enquanto muitos contam os dias que faltam para o Natal, outros já tornaram o mês de dezembro uma época festiva geek. Os estúdios agradecem.

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