Page 73 - Revista Metropolis nº128
P. 73
tes («Numéro Zéro», que esteve estreia como obra-prima, quase relegando o tar-se nos documentários, a ficção foi
absoluta na Cinemateca Portuguesa), a realizador à condição de autor de uma encarada como o seu grande lamento);
bruto, como tendência da sua própria única grande obra — o “cineasta maldi- na noite dessa declaração, a 5 de no-
tese de um dito cinema puro, nascido to”, cognome que se consolidaria após vembro de 1981, tiraria a própria vida.
da primeira brasa. Hoje é inegável: Jean o fracasso de público e de receção críti- Tinha 42 anos. A partir daí, como tantas
Eustache permanece sobretudo o reali- ca da sua segunda long de ficção, «Mes vezes sucedeu nessa pontual necrofilia
zador de «A Mãe e a Puta», épico do ver- petites amoureuses», coming-of-age artística, o cineasta tornar-se-ia ampla-
bo com mais de três horas e quarenta seco que o próprio realizador revelaria, mente reconhecido e influente para
minutos, protagonizado por Jean-Pier- horas antes do seu fim não anuncia- uma geração moderna de realizado-
re Léaud e Bernadette Lafont, um mé- do, tratar-se da “melhor coisa que fez”, res franceses. Hoje é irrecusável traçar
nage-à-trois de diálogos ultra-trabalha- confidência partilhada com um amigo. uma história desse cinema sem sequer
dos até à condição literária, através dos Nessa altura, de perna engessada e passar ao lado de Eustache, o marginal
quais emanam convicções, referências forçado ao espaço doméstico devido a intelectual. texto HUGO GOMES
e ideais do próprio realizador. A crítica um acidente na Grécia, Eustache revia
lambuzou-se, Cannes entregou-lhe o cinema em formato home video, sendo Ciclo Jean Eustache & Philippe Garrel: Os
Grande Prémio Especial do Júri, e, até essa mesma obra um dos títulos revi- Inclassificáveis do Cinema Francês da Leo-
hoje, o filme é reconhecido e celebrado sitados (o seu fiasco o levou a conten- pardo Filmes e Medeia Filmes
METROPOLIS MARÇO 2026 73

