Page 149 - Revista Metropolis nº128
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Esse mesmo dispositivo narrativo permite à série explo- Mais do que a resolução do mistério, «O Mistério de
rar um contraste que está no centro da sua proposta: a Grosse Pointe» interessa-se pelas dinâmicas que se
distância entre a imagem de normalidade cultivada pela instalam entre estas quatro personagens ligadas, de
comunidade e as tensões que atravessam a vida priva- forma improvável, por um segredo comum. As alian-
da das personagens. Ao acompanhar as tentativas do ças revelam-se frágeis e as motivações individuais
grupo para manter as aparências enquanto lidam com começam a entrar em conflito, expondo as fissuras de
as consequências do crime, «O Mistério de Grosse Poin- relações que, à partida, pareciam apenas circunstan-
te» encontra espaço para observar rivalidades sociais, ciais. O crime funciona assim menos como ponto de
frustrações pessoais e relações marcadas por ressenti- chegada do que como catalisador para observar como
mentos acumulados. O clube de jardinagem, símbolo de cada um reage quando a normalidade construída co-
ordem, torna-se assim um cenário irónico para uma his- meça a desfazer-se.
tória onde o controlo começa a escapar às mãos de quem Sem abdicar do tom leve que atravessa grande parte
tentou, inicialmente, resolver o problema em silêncio. dos episódios, a série explora com eficácia a ironia de
Ao longo dos episódios, a série alterna momentos de um ambiente dedicado ao cuidado e à ordem trans-
tensão com uma abordagem que não dispensa um certo formar-se no palco de um segredo partilhado. Entre
humor negro, sobretudo na forma como as personagens encontros sociais, rivalidades discretas e tentativas
procuram justificar decisões cada vez mais difíceis de sucessivas de controlar os danos, «O Mistério de Gros-
sustentar. Entre encontros sociais, pequenos conflitos se Pointe» constrói um retrato de comunidade onde a
domésticos e tentativas de evitar suspeitas, a narrativa aparência de harmonia convive com um conjunto de
vai revelando gradualmente as circunstâncias que le- tensões que acabam inevitavelmente por vir à super-
varam ao incidente inicial, mantendo o mistério como fície – lembrando que, mesmo nos jardins mais bem
motor da história enquanto aprofunda as fragilidades tratados, há sempre algo escondido debaixo de terra.
de cada uma das figuras centrais. SARA QUELHAS
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