Page 199 - Revista Metropolis nº128
P. 199
Basta-lhe um olhar para contar um capítulo inteiro. como o amor não acaba num incêndio: apaga-se PHOTO BY COURTESY OF SEARCHLIGHT PICTURES - © SEARCHLIGHT PICTURES
Há um momento em que o filme pára no seu rosto lentamente, por falta de manutenção.
e percebemos tudo: amor, mágoa, nostalgia, raiva,
esperança. Sem discurso. Sem sublinhado. É também um filme sobre amizade masculina,
vulnerabilidade tardia, pequenas comunidades
Cooper, como realizador, (e actor secundário também) improvisadas e a ideia quase revolucionária de que
está aqui no seu modo mais interessante: menos crescer não acaba aos 30. Num panorama de estreias
preocupado em impressionar, mais interessado em dominado por cinema-espetáculo, Cooper insiste
observar. A câmara aproxima-se sem invadir, os em fazer cinema para adultos, falhados, inseguros,
planos-sequência respiram, o som cria presença. Não mas ainda curiosos. É um nicho quase extinto. E ele
há virtuosismo exibicionista. Há escuta. ocupa-o com teimosia.
O argumento, escrito por Cooper, Arnett e Mark Talvez por isso a Academia tenha passado ao lado
Chappell, é irregular. Algumas personagens deste filme. Este não é um filme para campanhas
secundárias existem por obrigação contratual. agressivas, discursos lacrimosos ou clipes virais. É um
Certos diálogos explicam o que já estava claro. E há filme que fica. Que regressa semanas depois, numa
momentos em que o filme parece pedir desculpa por frase, num gesto, numa memória. «Ainda Funciona?»
ser demasiado simples. Mas talvez seja precisamente não muda o mundo. Não reinventa a linguagem. Não
aí que está a sua força. grita “obra-prima”. Mas lembra-nos de algo essencial:
às vezes, salvar um casamento, uma vida ou uma
«Ainda Funciona?» é um filme sobre meia-idade identidade começa com um microfone, um silêncio e
sobre o que acontece quando acordamos um dia a coragem de dizer em voz alta: “Acho que me estou a
e percebemos que fomos competentes, educados, perder.” E isso, hoje em dia, já acontece ao melhor dos
responsáveis, mas emocionalmente ausentes. Sobre mortais. JOSÉ VIEIRA MENDES
METROPOLIS MARÇO 2026 199

