Page 45 - Revista Metropolis nº128
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O MEU
URSO DE OURO
SUSANA BESSA
DAO
ALAIN GOMIS
No meio de uma tão enfraquecida secção competitiva na
76ª edição do Festival de Berlim, o meu urso de ouro iria
para «Dao», de Alain Gomis. Embora o melhor filme do
certame tenha sido um empate entre «Queen at Sea»,
filme de Lance Hammer, a co-produção inglesa e ame-
ricana que arrecadou o urso de prata - prémio do júri e
o mais recente filme da autora alemã Angela Schanelec,
po que o documentário «Siri Hus- «Meine Frau weint», é a odisseia do cineasta franco-se-
tvedt – Dance Around the Self» se negalês o merecedor vencedor não só por ser um objecto
comove através de reflexos dessa tão expansivo, rebelde em duração, forma e gesto, mas
mesma luz dentro do apartamen- também porque atravessa o coração da ancestralidade
to da escritora Siri Hustvedt, após no contexto da diáspora africana com a febre que o de-
a morte de Paul Auster, o seu Le- safio pede. O cinema deve ter essa dimensão extasiada,
bensmensch. “Isso não tem como que arranca subitamente e da qual perdemos controlo
ser substituído” são as palavras tal é a elevação da viagem. «Dao» é, em chinês, a pala-
que ecoam mesmo depois do final vra definidora para o conceito de caminho a percorrer.
da sessão. E aqui o caminho não é necessariamente literal, como
a palavra bem indica. Reveste-se antes de uma estrada
Estes são apenas alguns dos epi- mais espiritual e pós-colonial entre a Europa e a África
sódios transformativos ainda pos- Ocidental, profundamente antropológica e do foro pes-
síveis de encontrar num festival soal, sobre a história particular de uma jovem rapariga
em movimento como o de Berlim. francesa, da cerimónia do seu casamento, e dos seus
Confirmada a insegurança identi- antepassados na Guiné Bissau. A partir da irreverência
tária em tempos tão polarizado- que nasce da hibridez - não há como discernir quem é a
res, continua a afirmar-se abrigo pessoa e quem é o actor -, a sua câmara navega por có-
de um tão necessário derrama- digos culturais e ritualistas naqueles corpos fulgurosos
mento emocional. e dançantes. Em «Dao» cabe um mundo inteiro, sob a
forma de uma sessão de improviso tão pulsante que o
coração não consegue parar de bater.

