Page 47 - Revista Metropolis nº128
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URSO DE OURO
YELLOW LETTERS
İLKER ÇATAK
A Berlinale é habitualmente um festival onde a política não entra pela porta de trás nem fica pelos
bastidores: senta-se na primeira fila, aplaude ou manifesta-se em palco, nos ecrãs da Potsdamer
Platz e por toda a cidade. Em 2026, o festival voltou a fazer o que lhe é característico: premiar com o
Urso de Ouro um filme que olha para o presente como quem escreve um aviso na parede e com uma
forte componente política: «Yellow Letters» («Gelbe Briefe»), do alemão de origem turca İlker Çatak,
e não foi exactamente uma surpresa. Era favorito, era comentado nos corredores e nas tabelas da
crítica, era aquele filme que parecia carregar às costas a palavra “necessário” e ajustado ao momento.
Çatak, que já tinha mostrado nervos de aço em «A Sala dos Professores» (2023), volta a colocar per-
sonagens dentro de sistemas onde a moral não é simples nem facilitista. Aqui, o sistema chama-se
repressão, censura, cancelamento político contemporâneo. O cenário é uma Turquia recriada em
Berlim ou Hamburgo, um artifício assumido que funciona quase como provocação estética e desa-
fio político. Nada é inocente. Nada é neutro.
À primeira vista, a história parece um drama doméstico, ainda que situado num meio intelectual e
artístico: um casal de artistas de teatro, Derya (Özgü Namal), actriz consagrada, e Aziz (Tansu Bi-
çer), dramaturgo e professor, recebe as tais “cartas amarelas”. Despedimentos administrativos com
cheiro de vingança política. Pretextos ridículos, acusações vagas, um comentário mal interpretado.
São literalmente cancelados. Não nas redes sociais, mas na vida real e, sobretudo, profissional, aque-
la que lhes garante sustento e um relativo conforto. Com uma filha adolescente no meio, a dignidade
vai encolhendo à medida que o espaço da casa da mãe dele, em Istambul, se torna o novo exílio.
O filme é, à superfície, um drama conjugal da elite artística turca. Mas rapidamente percebemos
que a política entrou no quarto do casal e não tenciona sair tão cedo. Derya vê-se obrigada a aceitar
trabalhar numa produção alinhada com o poder vigente. Aziz recusa, agarrando-se aos seus prin-
cípios éticos, enquanto ela, de forma pragmática, agarra-se à sobrevivência; ele, aos ideais. Quem
está certo? Çatak é inteligente o suficiente para não oferecer respostas fáceis ou conclusivas. E esse
é talvez o gesto mais político de todos e o verdadeiro significado de «Yellow Letters».
Ainda assim, «Yellow Letters» não levanta a voz para se transformar num panfleto contra o regime
de Ancara. É incómodo, preciso, quase clínico na forma como mostra a erosão silenciosa do casal:
desemprego, humilhação, pequenas concessões que se acumulam. A palavra “cancelamento”, tão ba-
nalizada na actualidade, recupera aqui peso específico. São salários que desaparecem, é uma repu-
tação que se desfaz, é a filha que pergunta porque é que os adultos complicam tudo e simplesmente
porque não há internet.
A grande inteligência do filme está precisamente em dividir os espectadores. Metade sai a defender
Derya. Metade a aplaudir Aziz. E talvez o verdadeiro triunfo seja esse: obrigar-nos a escolher um
lado ou a admitir que não sabemos exactamente qual escolher, porque a situação é complexa. E,
como sempre acontece na Berlinale, o reflexo do filme não foi o mais simpático. Depois dos aplau-
sos, das fotografias, das passadeiras vermelhas, das entrevistas e das conferências de imprensa, o
filme deixou uma pergunta para todos os artistas: qual é o teu preço? josé vieira mendes

