Page 10 - Revista Metropolis nº128
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OS ÓSCARES ANTES DO SÉCULO:

          HOLLYWOOD A AFINAR A MÁQUINA DA FESTA









                                                     OPINIÃO
                                               JOSÉ VIEIRA MENDES







                                As     comemorações       e   pode chegar a cerca de 2,5 mil milhões de pessoas
                                aniversários       obrigam    em simultâneo, um número que faz parecer quase
                                sempre a arrumar a casa       modestas as audiências televisivas do passado. No
                                e a repensar o futuro. E      fundo, Hollywood quer transformar os Óscares
                                Hollywood, que pode ser       numa  espécie  de  Super  Bowl  global  do  cinema,
                                muitas coisas mas nunca       um espectáculo pensado para circular em todas
                                foi modesta quando se trata   as plataformas ao mesmo tempo, da televisão
                                de se celebrar a si própria   da sala ao telemóvel no metro. Curiosamente,
            e já começou a preparar o grande momento:         isto não significa abandonar o ecrã tradicional,
            os Óscares caminham para a sua 100.ª edição       porque milhões de pessoas já veem YouTube
            em 2028 e ninguém quer chegar ao centenário       precisamente… na televisão. O que muda é a
            com um espectáculo cansado, previsível e visto    escala e a ambição: a cerimónia deixa de ser um
            apenas por meia dúzia de cinéfilos nostálgicos    evento essencialmente americano para assumir
            agarrados à televisão. A Academia percebeu que    plenamente o estatuto de espectáculo planetário.
            o mundo mudou e que o velho ritual televisivo
            — aquela longa noite de discursos emocionados,    Mas  talvez a  mudança mais  simbólica  não seja
            números musicais extravagantes e vestidos que     tecnológica, seja histórica. Pela primeira vez
            custam o equivalente ao orçamento de um filme     em quase um século de prémios, os Óscares vão
            independente europeu — já não tem o mesmo         reconhecer oficialmente o trabalho dos directores
            magnetismo.  O público mudou de hábitos,          de elenco com uma nova categoria dedicada ao
            as redes sociais passaram a decidir o que é       Melhor Elenco. Durante décadas, estas figuras
            relevante e a atenção coletiva dura hoje o tempo   permaneceram  nos  bastidores, apesar  de
            de um vídeo no telemóvel. Resultado: Hollywood    serem muitas vezes responsáveis por encontrar
            decidiu  fazer  o  que  sabe  fazer  melhor  quando   talentos, montar equipas de actores e garantir
            sente o  perigo: reinventar  o espectáculo antes   que um filme funciona como um organismo vivo.
            que ele envelheça.                                Agora  passam  finalmente para  os holofotes.
                                                              O actor britânico Richard E. Grant resumiu a
            A mudança mais radical está prevista para 2028,   questão de forma quase brutal: os directores de
            quando os Óscares deverão abandonar o modelo      elenco trabalham anos a desenvolver projectos,
            tradicional de transmissão televisiva e passar a   muitas vezes com salários modestos, enquanto
            ser difundidos globalmente no YouTube. A ideia,   os actores recolhem os aplausos. Em Hollywood,
            defendida pelo CEO da Academia, Bill Kramer, é    onde o ego pode ter o tamanho de um estúdio
            simples e ao mesmo tempo ambiciosa: alcançar o    inteiro, esta invisibilidade era uma injustiça
            maior público possível. Segundo ele, a plataforma   antiga e demorou quase cem anos a corrigir.











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