Page 11 - Revista Metropolis nº128
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No meio de tudo isto paira ainda uma palavra que da cerimónia, como provou recentemente Ryan
anda a inquietar a indústria inteira: a inteligência Gosling ao cantar “I’m Just Ken” e transformar
artificial. Alguns vêem-na como ameaça, outros um momento aparentemente absurdo num
como ferramenta inevitável. A Academia optou fenómeno viral. No fundo, hoje o sucesso dos
por uma posição prudente e quase diplomática: Óscares mede-se menos pelos números de
a IA é apenas um instrumento. Não ajuda nem audiência televisiva e mais pela quantidade de
prejudica um filme na corrida aos prémios. Mas clips que invadem a internet no dia seguinte.
existe uma linha clara que Hollywood ainda
não quer ultrapassar: os Óscares continuam a Entretanto, a organização da cerimónia tornou-
ser atribuídos a seres humanos. Num momento se também um exercício de segurança digno de
em que algoritmos já conseguem gerar imagens, uma cimeira internacional. Num mundo onde
vozes e até guiões, a Academia insiste que a eventos globais podem ser alvo de protestos,
autoria artística continua a ter de ser humana, ameaças digitais ou sabotagem tecnológica, a
mesmo que as máquinas comecem a ocupar cada logística dos Óscares envolve hoje protocolos
vez mais espaço no processo criativo. sofisticados, colaboração com autoridades
federais e vigilância constante. Hollywood pode
Outra reforma menos filosófica mas igualmente viver de fantasia, mas montar a sua maior festa
urgente é a duração da cerimónia. Durante anos, anual tornou-se um trabalho quase militar.
os Óscares tornaram-se uma espécie de maratona
televisiva que podia ultrapassar quatro horas, À medida que o centenário se aproxima, a
uma eternidade para uma geração habituada pergunta inevitável paira no ar: os Óscares ainda
a consumir entretenimento em doses rápidas importam? Talvez não da mesma forma que
e virais. A promessa agora é de um espectáculo importavam há cinquenta anos. Mas continuam
mais compacto, mais ritmado e mais consciente a ser uma coisa rara no panorama cultural
do seu próprio tempo mediático. Mais momentos contemporâneo: um momento em que o cinema,
musicais, mais sequências pensadas para circular essa arte que vive entre a indústria e o sonho,
nas redes sociais e menos discursos intermináveis se olha ao espelho e decide contar uma história
que fazem metade da audiência procurar a porta sobre si próprio. E Hollywood, que construiu
de saída antes da estatueta final. uma civilização inteira à volta de contar
histórias, dificilmente desistirá de uma noite
Apesar de todas estas mudanças, Hollywood por ano em que pode fazer exactamente isso.
continua fiel a duas velhas receitas que nunca Enquanto houver cinema — e enquanto houver
falham: nostalgia e espectáculo. Os números ego suficiente para premiá-lo, haverá sempre
musicais continuam a ser o coração emocional Óscares.
opi n i ã o
METROPOLIS MARÇO 2026
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