Page 8 - Revista Metropolis nº128
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OS ESPECTADORES QUE NUNCA                                                                                 AF_Anúncio Metropolis.pdf   1   10/03/2026   10:32

                      FORAM A UMA SALA DE CINEMA











                                                     OPINIÃO

                                                    JOÃO LOPES






                                A história dos mercados       inquietante. A saber: 7% das pessoas inquiridas
                                cinematográficos europeus     nunca (repito: nunca) viram um filme numa sala
                                tem, há muitas décadas, os    de cinema.
                                EUA como um dos principais
                                protagonistas.   De    uma    Se arriscarmos extrapolar para o nível nacional,
                                maneira  ou de outra, os      diremos que perto de dois milhões e meio de
                                modelos    dominantes    de   americanos desconhecem os rituais (e as formas         C
                                distribuição  e  exibição  de   de prazer) do consumo de filmes nos espaços          M
            filmes no velho continente estão marcados pelas   clássicos das salas escuras. Mas este não é um
                                                                                                                     Y
            opções de marketing concebidas pelos grandes      mero problema de números. O cerne do problema
            estúdios americanos.                              está na qualidade da relação de cada indivíduo        CM
                                                              com o cinema. No limite, é a dimensão social do       MY
            A situação tem alguns efeitos perversos (incluindo,   próprio cinema que está em jogo.                  CY
            por vezes, o afogamento das próprias produções de                                                       CMY
            cada país europeu), podendo até gerar reticências   Não sejamos ingénuos. Não há modos “globais”         K
            mais ou menos moralistas (com resultados pouco    nem “decretos” que corrijam de um dia para
            interessantes  e,  sobretudo,  inoperantes  face  ao   o outro o drama mais básico: desconhecer a
            estado das coisas). Procuremos, por isso, manter   experiência da sala de cinema equivale a procurar
            o espírito aberto e apelar a algum pragmatismo.   ouvir música sem saber que algo mudou no final
                                                              do século XIX com os primeiros discos para serem
            Eis alguns dados a ter em conta. Nas vésperas dos   escutados em fonógrafos...
            Óscares, no dia 11 de março, a Variety publicou um
            estudo elaborado pelo Pew Researche Center que    As chamadas “janelas” de exibição — que obrigam
            funciona como um grito de alarme susceptível de   os filmes a permanecer um certo número de
            ecoar para lá das fronteiras culturais, industriais   semanas (aliás, fins de semana) nas salas, antes
            e económicas. Assim, ficámos a saber que em       de chegarem às plataformas — são um dado a ter
            2025 apenas metade dos cidadãos americanos        em conta na vasta conjuntura de problemas que
            assistiram nas salas de cinema a, pelo menos, um   tudo  isto  envolve. Curiosamente,  um  dia  depois
            filme.                                            da publicação do artigo da  Variety, a Universal
                                                              Pictures anunciou que vai alargar as “janelas” dos
            São sinais da desagregação das bases tradicionais   seus filmes: para cinco fins de semana em 2026 e
            de público (ou do público tradicional), motivada por   sete em 2027. Não será uma solução mágica para
            factores que vão da proliferação de plataformas de   o que quer que seja, mas é uma medida a ter em
            streaming até aos efeitos persistentes da epidemia   conta — para já, podemos agradecer a Christopher
            de  covid. Até porque deparamos com um dado       Nolan o empenho com que tem chamado a atenção
            mais discreto mas, a meu ver, verdadeiramente     para a urgência de medidas deste género.








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