Page 14 - Revista Metropolis nº128
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OS VAMPIROS TAMBÉM MORREM
CINEDOQUE
SARA QUELHAS
Durante anos, a televisão fez- tão surpreendente quanto parece à primeira vista.
nos acreditar que nada morre Durante anos, a indústria televisiva apostou na
verdadeiramente – basta ideia de que certos títulos possuíam uma espécie
esperar o tempo suficiente de imortalidade cultural – bastava reativá-los para
para que um clássico regresse reencontrar o público. Mas o destino do revival de
sob a forma de revival, «Buffy the Vampire Slayer» sugere algo diferente: há
reboot ou sequela tardia. séries que pertencem profundamente ao momento
Mas, às vezes, a própria em que nasceram. E regressar a esse universo,
indústria prova o contrário. décadas depois, pode revelar-se mais difícil do que
O cancelamento do projetado revival de «Buffy the simplesmente ressuscitar uma marca conhecida.
Vampire Slayer», pela Hulu, lembra uma verdade
curiosa sobre o atual ecossistema televisivo: nem O revival anunciado pela Hulu chegou mesmo a
todas as nostalgias sobrevivem ao teste do tempo. filmar um episódio piloto. Ainda assim, o projeto
acabou cancelado antes de receber luz verde
«Buffy the Vampire Slayer», que teve emissão para série e, até ao momento, a plataforma não
entre 1997 e 2003, nunca foi apenas uma série de apresentou uma explicação detalhada para a
fantasia adolescente. Criada por Joss Whedon e decisão.
protagonizada por Sarah Michelle Gellar, a história
da jovem caçadora de vampiros que equilibrava o O episódio pode servir, no entanto, como um
liceu com o Apocalipse ajudou a redefinir o lugar do pequeno sinal de mudança num momento em
fantástico na televisão. Talvez por isso regressar a que a televisão parece cada vez mais dependente
esse universo nunca tenha sido simples. Ao longo do passado. Recuperar títulos conhecidos parecia
dos anos, várias tentativas de revival ou reboot uma aposta segura: nomes familiares, universos
foram discutidas, quase sempre travadas por já testados e uma base de fãs pronta a regressar.
divergências criativas, mudanças ou simplesmente Mas essa lógica tem começado a mostrar os seus
pela relutância da própria protagonista em voltar limites. Nem todas as propriedades sobrevivem à
ao papel. passagem do tempo e, mesmo quando sobrevivem
na memória coletiva, isso não significa
A verdade é que este regresso nunca foi simples. necessariamente que consigam encontrar um
Durante mais de duas décadas, a ideia de revisitar novo lugar no presente.
«Buffy the Vampire Slayer» apareceu e desapareceu
várias vezes, quase sempre bloqueada por um Pode não ser o fim definitivo do universo de «Buffy
obstáculo diferente. A própria Sarah Michelle the Vampire Slayer». Nem de outros universos à porta
Gellar mostrou-se, durante anos, reticente em de renascer. Em Hollywood, poucas propriedades
voltar ao papel que a tornou famosa, insistindo desaparecem realmente para sempre e títulos com
que a história da personagem tinha tido um final reconhecimento global tendem a regressar mais
natural. Quando finalmente aceitou participar cedo ou mais tarde sob outra forma. Ainda assim,
num novo projeto, «Buffy the Vampire Slayer: o cancelamento deste projeto específico revela algo
New Sunnydale», já não seria como protagonista, mais interessante do que o simples adiamento
mas como figura de ligação a uma nova geração de de um revival. Mostra até que ponto a indústria
caçadoras. A ideia era simples: expandir o universo televisiva, durante anos convencida de que bastava
da série sem depender apenas da nostalgia. reativar marcas conhecidas para garantir atenção
e audiência, começa agora a confrontar-se com os
Talvez por isso o cancelamento do projeto não seja limites dessa estratégia.
14 METROPOLIS MêS 2022

