Page 12 - Revista Metropolis nº128
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«BOA SORTE», UM FILME QUE DÁ
SAUDADE
CINEMA BRASILEIRO
RODRIGO FONSECA
Estrelada por Alice Braga, Depois de sua entrega radical ao bas-fond para
uma adaptação de “Dans «Bruna Surfistinha» (2011), Deborah provou ter
le Jardin de l’Ogre”, febril vontade de potência para estar entre as grandes
romance de Leila Slimani, a atrizes do cinema brasileiro (Norma Bengell,
autora franco-marroquina do Fernanda Torres, Marília Pêra, Carla Ribas, Alice
premiado “Canção de Ninar”, Braga, Leandra Leal). Mas em «Boa sorte», potência
está a caminho do ecrã, a se vira ato: no papel de Judite, jovem que vive com
chamar literalmente «No HIV, ela vira uma Jeanne Moreau dos trópicos,
Jardim do Ogro». A realização será de Carolina capaz de abrir mão das vaidades (e do próprio peso)
Jabor. O seu histórico guarda um filme que é uma para compor uma figura nas raias da Morte. Judite
joia: «Boa Sorte» (2014). É uma longa-metragem foi parar num sanatório para toxicômanos a fim de
que carece de mais prestígio do que tem. limpar as veias das drogas que sorveu.
Sabem aquela sensação visceral de ser engolido O argumento, escrito a quatro mãos pelo próprio
pelo ideal cinematográfico do amor romântico, Jorge Furtado e o seu filho, Pedro, finta os clichés
que «Jules et Jim» (1962), de François Truffaut, da desordem arrependida visto em obras de vulto
fica no espectador a cada vez que o vemos? Então... como «Clean» (2004), do francês Olivier Assayas.
o impacto lírico que «Boa sorte» pode causar vai Ele faz de Judite um tipo irredutível em relação à
na mesma intensidade. Só há uma ressalva: é sua voracidade de viver. Mesmo doente terminal,
um «Jules et Jim» de dois, pois o máximo de ela não arreda o gosto pela sua rebeldia, como era
triangulação que existe é um homem, uma mulher a apaixonante Catherine de Jeanne Moreau em
(uma inspirada Deborah Secco) e um vírus, o HIV. «Jules et Jim». Deborah entende bem os dribles de
Este é faminto por saúde. Os outros dois vértices pai Furtado e Furtado filho, garantindo à sua Judite
do triângulo estão com fome de um abraço capaz tridimensionalidade, a partir de um jogo de olhares
de abrigar as suas carências, as suas demandas capaz de expressar a vontade da jovem em curtir
incompletas, seu vazio todo. até o fim. Só que o curtir aqui envolve um excesso
que não é etílico, nem venoso, e usa preservativo: o
Para um filme de estreia na ficção, o trabalho excesso do bem-querer.
de Carolina — realizadora, com Lula Buarque
de Hollanda, do documentário «O Mistério Ao lado de Judite aparece João (João Pedro Zappa,
do Samba», de 2008 — surpreende pela sua de «Gabriel e a Montanha»), um estudante que
maturidade na arquitetura dos enquadramentos vai parar na mesma clínica para se libertar da
e na direção dos atores. A sua passagem pela dependência em Frontal e bolotas coloridas afins.
Mostra de São Paulo – após ganhar o prémio de Ele crê que a mistura do ansiolítico com refrigerante
júri popular e de direção de arte em Paulínia, em de laranja pode lhe garantir invisibilidade. João se
julho de 2014 – foi consagradora, de lotar salas e sente alvo da indiferença do carinho do mundo.
arrancar aplausos aos quilos. Diante de um conto Ser invisível é apenas um detalhe para quem
curto de Jorge Furtado, “Frontal com Fanta”, não é enxergado pelos pais (Gisele Fróes e Felipe
que serviu como a sua espinha dorsal, a cineasta Camargo). Mas, uma vez iniciado seu detox, ele se
carioca conseguiu um alongamento arejado, sem percebe notado por Judite. E, aos poucos, luta para
forçar viradas nem colisões inusitadas. É daquele que ela faça mais do que notar seus passos e suas
tipo de trama de amor que ganha a plateia pela tentativas de roubar dela um beijo.
leveza. É uma ode ao benquerer.
12 METROPOLIS MêS 2022

