Page 102 - Revista Metropolis nº128
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te. Ele diz que é um raio de sol, a chama   feminista. E aqui a Marie é a amante de   luz, o calor, aqueles momentos íntimos
            do desejo. Mas não sabemos realmente   um amor não correspondido.  que me tinham marcado muito. Mas não
            quem ela é. Tirando isso — e o facto de                           tinha uma memória muito clara. Quando
            ser datilógrafa, sabemos muito pouco   Imagino que tenha lido o romance….  o reli, por causa do filme, fiquei arreba-
            sobre a Marie. Fiquei feliz por o François   Rebecca Marder: Sim, em França lê-se   tada. Senti-me com sorte por voltar a
            me oferecer uma parte de feminilida-  no colégio. Eu tinha uma lembrança   mergulhar, até em toda a obra de Camus.
            de que ainda não tinha explorado no   de adolescente. Na altura não tinha   Porque ele está sempre atual, mas hoje
            cinema.                          compreendido tudo, não tinha todas as   talvez mais do que nunca: com o absur-
                                             chaves. E ainda hoje não as tenho todas.   do, tenho a impressão de que estamos
            Já tinha trabalhado antes com o Fran-  Mas, como acontece com as obras-pri-  completamente mergulhados nele.
            çois Ozon…                       mas, aconselham a lê-las em todas as
            Rebecca Marder: Até agora tinham-me   idades da vida. Ou pelo menos dizem   Sentiu o peso da responsabilidade?
            oferecido papéis de mulheres muito   que é bom reler Proust e Camus de dez   Rebecca Marder: Sim, porque a obra
            empenhadas, e isso é uma sorte, estou   em dez anos.              pertence um pouco a toda a gente.
            verdadeiramente honrada por isso.                                 É uma obra patrimonial. E quando o
            Mas havia uma espécie de fio condutor   Agora, quando releu o livro, o que   François anunciou que ia fazer o filme,
            entre os meus papéis: mulheres em luta,   mudou na sua perceção?  as pessoas diziam: «Ah, é o meu livro pre-
            ou então mulheres de intelectuais, ou   Rebecca Marder: Acho que Camus   ferido!» Portanto isso assusta. Sobretudo
            mulheres políticas… Com o François,   ajuda a viver. Eu tinha uma lembrança   porque tem a reputação de ser impos-
            já tinha interpretado uma advogada   quase carnal dessa leitura. Recordava a   sível de adaptar, porque abre tantos




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