Page 99 - Revista Metropolis nº128
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concretas. Tudo o que é da ordem do   é que é como um encontro marcado.   maneira de olhar que não está no
            sentimento, tenho dificuldade em expli-  Tenho a impressão de que toda a gente   texto. Se tivesse sido página a página,
            car. Mas diverte-me fazê-lo. A ele não o   o lê de dez em dez anos. Como é curto,   nem o François nem eu o teríamos
            diverte. Aí acaba a semelhança entre o   não é um grande volume, e é muito   feito, penso eu. Quando começamos
            Meursault e eu. Ele acha que o jogo so-  filosófico sendo ao mesmo tempo fácil   com a frase «matei um árabe», em vez
            cial não vale a pena e que a condenação   de compreender — não é Nietzsche,   de «hoje a mãe morreu», isso cria um
            de termos de morrer é maior. Eu prefiro   não é Goethe — é fácil voltar a ele.   eco com o presente. Achei tudo isso
            brincar um pouco enquanto estamos   Gosto disso.                  interessante.
            cá. Portanto estou bastante no oposto
            do Meursault.                    Conhecendo bem o livro, como viu   Também fez teatro. Qual é a diferen-
                                             a adaptação do François Ozon?    ça, para si, entre cinema e teatro?
            Qual foi a sua impressão quando leu   Benjamin Voisin: Gosto que o   Benjamin Voisin: A diferença é que,
            o livro pela primeira vez, imagino   François tenha feito uma adaptação   no teatro, no fundo, o ator tem todo
            que na escola?                   que não é linear, página por página.   o poder. o pano sobe, acabou. Se eu
            Benjamin Voisin: Não foi “tenho de o   Que seja outro objeto. O objetivo   quiser ir para ali ou para acolá, faço o
            ler porque sou obrigado”. Eu gostava   não é fazer a adaptação. É completar.   que quiser. No cinema, se o François
            muito de ler naquela altura. Mas houve   Trazer um ponto de vista feminino.   não quiser usar um plano, não o usa. Há
            uma incompreensão, precisamente por   Trazer uma sensualidade que não está   muito mais questionamento em relação
            causa disso. O que eu acho bom no livro   nas palavras. Trazer um toque, uma   ao desejo do outro, do realizador.





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