Page 105 - Revista Metropolis nº128
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Ser atriz sempre foi o seu sonho?
                                                                              Rebecca Marder: Sim. Quando era
                                                                              criança e adolescente, não assumia total-
                                                                              mente isso. Tinha a impressão de que era
                                                                              apenas um sonho e que também preci-
                                                                              sava de encontrar uma profissão séria. É
                                                                              uma profissão tão aleatória e difícil… há
                                                                              poucos escolhidos para muita gente que
                                                                              sonha com isso. Quando era pequena
                                                                              queria ser talhante e atriz, florista e atriz,
                                                                              estilista e atriz… Depois, quando entrei
                                                                              na Escola Nacional de Teatro, disse a
                                                                              mim mesma: vou assumir que é isto que
                                                                              quero fazer. E avancei.


                                                                              A Rebecca já disse um dia que tinha o
                                                                              sonho de adaptar o único romance da
                                                                              Sylvia Plath…
                                                                              Rebecca Marder: Sim, mas é impossível
                                                                              conseguir os direitos. Acho que é a filha
                                                                              que os tem. Ela teve dois filhos, um rapaz
                                                                              e uma rapariga. Um deles também se
                                                                              suicidou. Horrível. E acho que o filho
                                                                              que resta não concede os direitos. Mas
                                                                              adoro esse romance. Acho-o magnífico.
                                                                              Ela escreveu-o aos 20 anos. É realmente
                                                                              muito bonito.

                                                                              Isso quer dizer que tem outras ambi-
                                                                              ções além da representação?
                                                                              Rebecca Marder: Sim, claro. Gostaria
                                                                              muito de escrever e realizar. Aliás, era
            mos longe de casa. Normalmente as   uma exigência enorme. Representamos   isso que queria fazer inicialmente. Mas
            filmagens no estrangeiro parecem um   textos que talvez não representássemos   depois, quando entrei na Comédie
            pouco uma colónia de férias: estamos   em mais lado nenhum. Estou muito   Française, estava numa roda enorme
            longe de casa, convivemos muito. E ain-  grata. Foi extraordinário.  de trabalho e deixei-me levar por tudo
            da por cima tínhamos a mesma idade,                               o que tinha de fazer. Quando saí da
            por isso pensei que fosse assim. Mas ele   Para quem vem de fora de França,   companhia pensei que teria mais tempo
            estava muito fechado em si.      a Comédie Française é quase uma   e que gostaria de voltar a escrever e
                                             marca. O que representa para um   pensar em realizar. Entretanto também
            Entrou muito jovem na Comédie    ator francês?                    encontrei tempo para escrever canções
            Française...                     Rebecca Marder: Eu nunca imaginei   para o grupo Feu! Chatterton. Mas ainda
            Rebecca Marder: Sim, foi um presente   que um dia entraria lá. Para mim fazia   não gravámos nada.
            incrível. Passei sete anos na companhia   parte do imaginário do teatro. Eu tinha
            e saí há dois. Acho que me disciplinou   feito uma escola de teatro, por isso   Para terminar literalmente em beleza
            imenso, deu-me muita resistência. Às   esperava fazer teatro, mas nunca pensei   a nossa conversa, o François Ozon
            vezes somos levados a representar   que entraria numa companhia onde   disse que quando a vê no filme em
            quatro peças ao mesmo tempo, seis   ficaria sete anos. E é uma companhia   fato de banho branco se lembra da
            vezes por semana. É muito físico, muito   ancestral. Quando estamos lá sentimos   Elizabeth Taylor em «Bruscamente no
            atlético. Ensinou-me a ver este ofício   quase ondas místicas. Todos os fan-  Verão Passado»…
            como um trabalho de artesão. Formou-  tasmas das pessoas que passaram por   Rebecca Marder: É um filme magnífico.
            -me muito. Aprendi imenso, sentia que   ali, que pisaram aquele palco, aqueles   Ele é simpático. É o preto e branco que
            estava sempre a ser puxada para cima.   corredores… é incrível. Em França é   provoca essa associação. Mas é um belo
            Há atores de todas as gerações. E existe   património, como Camus.  elogio.



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