Page 155 - Revista Metropolis nº128
P. 155

O ESTRANGEIRO
 S


                                                                                    TÍTULO ORIGINAL
                                                                                    L’Étranger
 CA
                                                                                    REALIZAÇÃO
                                                                                    François Ozon
                                                                                    ELENCO
                                                                                    Benjamin Voisin
                                                                                    Rebecca Marder
                                                                                                                      PHOTO CAROLE BETHUEL (C) FOZ - GAUMONT - FRANCE 2 CINEMA
                                                                                    Pierre Lottin
                                                                                    ORIGEM
 TI
                                                                                    França
                                                                                    DURAÇÃO
                                                                                    135 min.
                                                                                    ANO
                                                                                    2025
 CRÍ








 CRÍ        François Ozon adaptou Albert Camus e desafiou     queima mais do que ilumina. Mas Ozon percebeu






                                                              aquilo que, em 1967, era ponto cego: em 2025 já
            os fantasmas coloniais. «O Estrangeiro» é um
                                                              não se pode filmar “um árabe” sem nome.
            daqueles livros que já pertencem ao imaginário
 TI
            colectivo e universal. Quase toda a gente o leu
            no liceu, na adolescência — ou pelo menos os
                                                              Rodado a preto e branco, com uma elegância quase
                                                              clássica, Ozon constrói um filme atmosférico,
            da minha geração, em que se lia bastante —,
                                                              pesado, mas nunca museológico. Não há aqui
            sublinhou frases existencialistas, discutiu o
            numa igreja com botas enlameadas. Pois foi
                                                              e modernidade. O realizador abre com imagens
 CA         absurdo à mesa do café. Mexer ali é como entrar   reverência de estátua ou memória. Há inquietação
                                                              de arquivo da Argélia colonial, idealizada pela
            exactamente isso que François Ozon decidiu fazer
                                                              metrópole, e deixa que o racismo estrutural
            ao levar a sua nova adaptação de Albert Camus à
                                                              atravesse o julgamento de Meursault como um
            competição do Festival de Cinema de Veneza 2025.
            Cinquenta e oito anos depois da versão de Luchino
                                                              fantasma que nunca saiu da sala. “Não é por matar
            Visconti — com Marcello Mastroianni de cigarro
                                                              um árabe que será condenado”, diz o advogado. E a
                                                              frase cai como uma pedra.
            na boca e ar blasé —, Meursault regressou primeiro
 S          de cinema nacionais. E regressa com vontade de    A grande ousadia desta versão de Ozon está em
            ao Lido de Veneza e finalmente chega às salas
                                                              dar rosto e voz à vítima, algo que não acontece
            provocar. Benjamin Voisin interpreta o funcionário
                                                              no livro. Djemila, irmã do homem morto, ganha
            apático que enterra a mãe sem lágrimas e dispara
                                                              presença e nome. No romance, o silêncio era regra;
            cinco tiros na praia argelina, sob um sol que





                                                                                          METROPOLIS MARÇO 2026    155
   150   151   152   153   154   155   156   157   158   159   160