Page 156 - Revista Metropolis nº128
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no filme, o silêncio torna-se acusação. Ozon puxa   Entre o homem e o mundo, como escreveu Camus,
            um fio que Camus deixou solto e expõe a fractura:   nasce o absurdo. Entre o texto e a câmara, nasce
            dois mundos que coexistiam sem se ver. Não é      aqui outra coisa que vai para além da obra literária
            uma reescrita militante, mas também não é uma     datada: um desconforto contemporâneo, que não
            neutralidade confortável.                         cai na tentação de fazer uma reparação histórica
                                                              ou pedir desculpas.
            Claro que a polémica não tardou. Há quem
            aplauda a fidelidade ao absurdo camusiano;        Mais do que sobre um “homem absurdo”, o filme
            outros acusam Ozon de politicamente correcto,     parece falar de um país — a França, claro — que ainda
            de comentar mais do que adaptar. A própria filha   não resolveu a sua memória colonial. Camus, prémio
            do escritor manifestou reservas quanto ao novo    Nobel de 1957, filho da Argélia francesa, escrevia,
            epílogo. E é aqui que o filme ganha espessura:    na altura, a partir dessa ambiguidade. Porém, Ozon
            o romance nunca foi consensual; a adaptação       filma-a sem pedidos de desculpa formais, mas também
            também não tinha, obviamente, de o ser. Ozon      sem fingir que nada aconteceu. No final, quando ecoa
            reduz a narração ao mínimo, ampliando as          o tema “Killing an Arab”, dos The Cure, percebe-se a
            imagens e a acção. O mutismo de Meursault         armadilha. Não é apenas uma provocação gratuita: é a
            domina. Não há uma psicologização fácil da        música a redimensionar um espelho da realidade. Em
            personagem. Há corpos, luz, mar, suor. A cena do   1942, Meursault era estranho ao mundo. Em 2025,
            crime, montada em sucessivos close-ups, tem uma   talvez estranho seja, por vezes, o nosso silêncio em
            fisicalidade quase perturbadora. “O Estrangeiro”   relação à discriminação e ao racismo estruturais.
            não é um filme de tese; é um filme de tensão.     JOSÉ VIEIRA MENDES












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