Page 160 - Revista Metropolis nº128
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BOA SORTE,
DIVERTE-TE,
NÃO MORRAS
TÍTULO ORIGINAL
Good Luck, Have Fun, Don't Die
REALIZAÇÃO
Gore Verbinski
ELENCO
Sam Rockwell
Juno Temple
Haley Lu Richardson
ORIGEM
Bélgica, Países Baixos
DURAÇÃO
134 min.
ANO
2025
Façamos uma sopa. Comece-se com uma base de «Black Mirror». A história acompanha um grupo
«Back to the Future» demolhada em desencanto. improvável de personagens arrastadas para um
Junte-se um pouco de «Terminator» e uma dose de cenário em que as tecnologias emergentes (redes
«Matrix». Para tempero um pouco de «The Stepford sociais omnipresentes, algoritmos omniscientes e
Wifes» e «Truman Show» q.b. Termine-se com inteligências artificiais com agenda própria) começam
umas pitadas de «This is the End» e «Everything lentamente a colonizar a experiência humana. O tom
Everywhere All at Once», «Idiocracy» e uns tantos é deliberadamente exagerado: há viagens temporais
outros em menores proporções. O chef Verbinski improvisadas, conspirações digitais e uma sensação
diz ainda ter usado «Repo man», «Akira»e «Dog constante de que a realidade foi substituída por uma
Day Afternoon», mas não sentimos esse travo. O simulação grotescamente acelerada e anestesiante.
resultado, por incrível que pareça, é delicioso. Com Mas é precisamente nesse exagero que reside a
«Good Luck, Have Fun, Don't Die», Gore Verbinski eficácia da sátira. O filme dá uma proposta de um pela
oferece-nos uma afiada e divertida sátira à alienação amplificação das tendências já visíveis no presente.
da sociedade contemporânea constantemente à Um grito de Cassandra.
procura de gratificação nas redes sociais; e aos
medos implícitos da velocidade e voragem das novas Verbinski demonstra uma consciência aguda do
tecnologias, em particular da Inteligência Artificial. ritmo do mundo contemporâneo. A montagem é
frenética, os diálogos são rápidos e, se bem com
O filme apresenta-se, à primeira vista, como uma uma excelente escrita de Matthew Robinson,
comédia de ficção científica ligeira, quase caótica frequentemente atropelam-se uns aos outros;
na sua sucessão de situações absurdas e referências e as imagens sucedem-se numa torrente quase
pop. Contudo, sob essa superfície aparentemente vertiginosa. Esta estética de aceleração não é mero
lúdica, Verbinski constrói uma narrativa que funciona estilo: é parte integrante da crítica. O espectador é
como espelho deformante do presente: um outro colocado numa posição semelhante à do utilizador de
160 METROPOLIS MARÇO 2026

