Page 163 - Revista Metropolis nº128
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raros os dinners com este estilo tendo estes sido,   pressão da informação. A sensação é a de um mundo
            paulatinamente, substituídos por versões sem estilo   em que a fronteira entre realidade material e
            próprio ou alma a troco de uma maximização do     arquitectura digital se tornou indistinta.
            lucro e eficiência.
                                                              No final, «Good Luck, Have Fun, Don't Die» não
            Apesar da sua acidez, o filme não abandona        oferece soluções simples e forma um ouroboros. O
            completamente a dimensão humana. No centro da     título, com o seu humor quase nihilista, resume bem
            narrativa permanece um conjunto de personagens    o espírito do filme: uma mistura de ironia, resignação
            que tentam compreender o que significa agir num   e desafio. A mensagem não é que a tecnologia
            mundo em que as consequências das acções são      conduzirá inevitavelmente ao desastre, mas que
            amplificadas por redes globais e inteligências    a velocidade com que a adoptamos e o espírito
            artificiais. Há momentos de genuína vulnerabilidade   acrítico com que a aceitamos pode impedir-nos de
            em que a comédia dá lugar a uma reflexão mais     compreender plenamente as suas consequências.
            silenciosa sobre responsabilidade, liberdade e    Verbinski entrega assim uma obra que funciona
            identidade. Esses momentos funcionam como         simultaneamente como comédia, ficção científica e
            pequenas pausas num turbilhão narrativo que,      comentário cultural. Ao exagerar as lógicas da cultura
            de outro modo, poderia tornar-se excessivamente   digital — a busca incessante de entretenimento, a
            frenético. Visualmente, Verbinski demonstra       aceleração permanente e a delegação de decisões
            uma capacidade notável para traduzir conceitos    a máquinas — o filme revela algo profundamente
            abstractos em imagens concretas. Interfaces digitais   real sobre o presente. Como na melhor sátira,
            transformam-se em cenários físicos, algoritmos    rimo-nos primeiro e percebemos depois que a
            assumem formas quase monstruosas, e o próprio     piada é, em grande medida, sobre nós próprios.
            espaço cinematográfico parece dobrar-se sob a     NUNO VAZ DE MOURA







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