Page 165 - Revista Metropolis nº128
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como simples extensão da tragédia do monstro,     episódios mais célebres do imaginário associado
            «A Noiva!» (2026) procura observar o que acontece   ao mito de Frankenstein. A narrativa desloca-se
            quando essa figura ganha autonomia narrativa. A   gradualmente da ideia de criação para a questão da
            relação entre a Noiva e Frank nunca se estabiliza   existência: o que significa viver quando a própria
            numa lógica previsível de redenção ou de romance,   origem foi concebida como função de outro. Nesse
            permanecendo marcada por aproximações cautelosas,   percurso, a Noiva afirma-se menos como resposta
            mal-entendidos e momentos de reconhecimento       à solidão de Frank do que como presença que
            entre duas existências que partilham uma origem   obriga a reavaliar toda a lógica que sustentava essa
            semelhante, mas não necessariamente o mesmo       necessidade.
            destino.
                                                              Essa deslocação permite ao filme recuperar um dos
            A presença da Dra. Euphronious mantém-se como     temas centrais do mito criado por Mary Shelley: a
            lembrança constante da experiência que tornou     responsabilidade que acompanha o ato de dar vida.
            possível esse encontro, mas a narrativa interessa-  A experiência conduzida pela Dra. Euphronious não
            se cada vez menos pela mecânica científica do     se esgota no momento da criação; prolonga-se nas
            processo. O que passa para primeiro plano são as   consequências imprevisíveis que emergem quando a
            consequências humanas – ou quase humanas – da     criatura começa a afirmar uma vontade própria.
            experiência: a forma como uma criatura recém-     No final, o filme sugere que a figura da noiva
            chegada aprende a interpretar o mundo e como      sempre encerrou um potencial narrativo que
            a sua existência obriga Frank a confrontar a      raramente foi explorado. Ao colocá-la no centro da
            história que o definiu durante tanto tempo. É nesse   história, «A Noiva!» (2026) regressa ao imaginário
            equilíbrio instável entre mito conhecido e percurso   de Frankenstein para mostrar que aquilo que
            imprevisível que o filme constrói a sua leitura da   começou como experiência científica se transforma
            figura da noiva.                                  inevitavelmente numa questão de identidade e
                                                              liberdade. É nesse espaço – entre a herança do mito
            No último terço, torna-se claro que «A Noiva!»    e a tentativa de o reinventar – que o filme encontra a
            (2026) não pretende simplesmente revisitar um dos   sua verdadeira razão de existir. SARA QUELHAS


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