Page 173 - Revista Metropolis nº128
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às tensões — culturais, raciais, políticas — mas não foi para Lisboa nem para o estrangeiro, de quem
também não faz um panfleto político-social. Prefere vive num cruzamento permanente sem saber para
observar, através de pequenos gestos, noites longas, onde seguir. Laura é o olhar de fora, mas também é
álcool e as drogas leves como anestesia e sobretudo o espelho: todos ali procuram uma saída, mesmo que
delito miúdo e a pequena delinquência, como fuga à seja ilusória. «Entroncamento» não é cinema polido
estagnação. para exportação festivaleira; é cinema de fricção,
onde Portugal — ou melhor, o seu microcosmo na
O elenco mistura actores profissionais e não cidade ferroviária — não aparece como postal, mas
profissionais, muitos residentes na própria cidade como território em tensão.
ou de fora das grandes cidades. A actriz luso-cabo-
verdiana Cleo Diára volta a marcar presença, Rafael Do calor africano de outros filmes portugueses
Morais traz intensidade contida, e há estreantes recentes, passamos aqui à noite húmida do interior
que dão ao filme uma verdade que não se ensaia. A urbano. Há um país para além da capital, há histórias
direcção de fotografia de Leonor Teles mantém a para além dos bairros cool de Lisboa ou do Porto.
energia de guerrilha, mas com maior maturidade Há juventudes esquecidas que também merecem o
formal do que em «Verão Danado». Nota-se grande ecrã.
crescimento, mas sem perder a urgência. O mais
interessante é que «Entroncamento» não quer explicar «Entroncamento» é isso: um cruzamento de várias
tudo, nem todos os problemas sociais da cidade. coisas. De caminhos, de identidades, de um cinema
Limita-se a observar. Não há moral da história. Há, português que começa a olhar para dentro sem medo
antes, a sensação de quem ficou para trás, de quem de se sujar. JOSÉ VIEIRA MENDES
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