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às tensões — culturais, raciais, políticas — mas   não foi para Lisboa nem para o estrangeiro, de quem
            também não faz um panfleto político-social. Prefere   vive num cruzamento permanente sem saber para
            observar, através de pequenos gestos, noites longas,   onde seguir. Laura é o olhar de fora, mas também é
            álcool e as drogas leves como anestesia e sobretudo o   espelho: todos ali procuram uma saída, mesmo que
            delito miúdo e a pequena delinquência, como fuga à   seja ilusória. «Entroncamento» não é cinema polido
            estagnação.                                       para exportação festivaleira; é cinema de fricção,
                                                              onde Portugal — ou melhor, o seu microcosmo na
            O elenco mistura actores profissionais e não      cidade ferroviária — não aparece como postal, mas
            profissionais, muitos residentes na própria cidade   como território em tensão.
            ou de fora das grandes cidades. A actriz luso-cabo-
            verdiana Cleo Diára volta a marcar presença, Rafael   Do calor africano de outros filmes portugueses
            Morais traz intensidade contida, e há estreantes   recentes, passamos aqui à noite húmida do interior
            que dão ao filme uma verdade que não se ensaia. A   urbano. Há um país para além da capital, há histórias
            direcção de fotografia de Leonor Teles mantém a   para além dos bairros cool de Lisboa ou do Porto.
            energia de guerrilha, mas com maior maturidade    Há juventudes esquecidas que também merecem o
            formal do que em «Verão Danado». Nota-se          grande ecrã.
            crescimento, mas sem perder a urgência. O mais
            interessante é que «Entroncamento» não quer explicar   «Entroncamento» é isso: um cruzamento de várias
            tudo, nem todos os problemas sociais da cidade.   coisas. De caminhos, de identidades, de um cinema
            Limita-se a observar. Não há moral da história. Há,   português que começa a olhar para dentro sem medo
            antes, a sensação de quem ficou para trás, de quem   de se sujar. JOSÉ VIEIRA MENDES





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