Page 178 - Revista Metropolis nº128
P. 178
HISTÓRIAS DO
VALE BOM
TÍTULO ORIGINAL
Historias del buen valle
REALIZAÇÃO
José Luis Guerin
ELENCO
Antonio López
Fátima Dossantos
Sónia Dossantos
ORIGEM
Espanha, França
DURAÇÃO
122 min.
ANO
2025
Neste mundo de ódios, divisões e guerras, fazia falta longo de três anos, para colher o que lhe interessava
um novo filme de José Luis Guerin. Uma década retratar: pedaços do seu quotidiano, dos seus hábitos,
depois da sua última longa-metragem, «A Academia das suas conversas ou momentos nostálgicos, que
das Musas», o mestre espanhol está de volta com desenham um mapa da vivência daquele lugar.
um documentário que não é bem um documentário O resultado é extremamente tocante. Apaixonamo-
– à semelhança de outras obras suas, atravessa-o nos por Norma Coracine, que vê a memória do marido
um desejo poético que contamina as personagens desvanecer aos poucos, tocando piano no alto dos
(sim, personagens, ou não integrasse o momento novos prédios da cidade-dormitório; enternecemo-
do casting no filme), aqui figuras quase mitológicas nos com a portuguesa Fátima Dossantos, que habita a
esculpidas numa geografia particular. Porquê o zona rural do bairro, levando a neta a apanhar flores
título «Histórias do Vale Bom»? Porque são várias as pelos montes verdejantes, para lhe falar das árvores
vozes e experiências individuais que se concentram e dos mortos; e não menos comovente é o velho com
em Vallbona, esse bairro da periferia de Barcelona imaginação fértil que sugere a Guerin que faça um
onde Guerin foi filmar o semblante de uma vida western – a referência é aproveitada pelo realizador
comunitária. para revestir a sua silhueta de uma aura qualquer,
enquanto este mira o horizonte.
Próximo da filosofia do seminal «En construcción»
(2001), que acompanha a mudança da paisagem A presença de José Luis Guerin atrás da câmara
urbana no Barrio Chino de Barcelona, e também de raramente se manifesta, mas sente-se o tempo todo:
«Innisfree» (1990), filme em que Guerin segue os há um amor palpável na leitura daqueles rostos (foi
passos de John Ford nessa localidade irlandesa onde o próprio cineasta que usou a palavra “amor” para
o cineasta americano rodara «O Homem Tranquilo» descrever a posição do seu cinema, na conferência de
(1952), «Histórias do Vale Bom» assenta numa imprensa de San Sebastián, festival onde venceu o
profunda dimensão humana. Ao contrário da maioria Prémio Especial do Júri), e um respeito infinito pela
dos documentários, que repousa na lógica do “conte humanidade que se expõe diante do seu olhar. O que
lá a sua história”, Guerin misturou-se com as pessoas ele procura é tão-só a expressão natural dos corpos na
de Vallbona, sobretudo migrantes, criando laços ao paisagem. INÊS N. LOURENÇO
178 METROPOLIS MARÇO 2026

