Page 29 - Revista Metropolis nº128
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BERLINALE 2026 EM ESTADO DE SÍTIO:
QUANDO A CULTURA INCOMODA O PODER
festival ali nunca é só cinema. É sempre ir a liberdade de expressão num festi- são crescente entre cultura e poder po-
contexto, é sempre fricção. val financiado pelo Estado? A pergunta lítico num momento em que vários go-
parece técnica, mas é profundamente vernos conservadores europeus olham
E é precisamente isso que começa a in- ideológica. para o meio artístico como um território
comodar o status quo político e conser- suspeito. Demasiado crítico. Demasia-
vador na Alemanha. Tricia Tuttle não fez os discursos. Não do diverso. Demasiado pouco alinhado
escreveu as falas. Não ergueu bandeiras. com os “valores nacionais”.
A polémica em torno de discursos pró- Fez o que qualquer directora faz: garan-
-Palestina na gala de encerramento e tiu que o palco estava aberto. E, pelos Os festivais de cinema sempre foram
a fotografia de Tuttle ao lado de uma vistos, isso já é demasiado. espaços de confronto simbólico. Filmes
equipa com keffiyehs e uma bandeira pa- sobre ditaduras, guerras, desigualda-
lestiniana serviram de pretexto perfeito O que está verdadeiramente em causa des, minorias. Isso nunca foi confortável
para reacender o debate: até onde pode não é uma frase dita numa gala. É a ten- para o poder. Mas havia uma espécie de

