Page 31 - Revista Metropolis nº128
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cadas. Protocolos elegantes. Eventos para outra cidade, outro festival, outro çasse agora a erguer barreiras invisíveis
onde tudo é seguro e nada é relevante. palco. dentro dos seus próprios palcos.
E há um detalhe essencial: o cinema não
é neutro. Nunca foi. Um filme sobre Gaza No fundo, a questão é simples: que tipo A liberdade de expressão raramente de-
é político. Um filme sobre a Ucrânia é po- de espaço queremos que os festivais de saparece com um estrondo. Desaparece
lítico. Um filme sobre direitos LGBTQIA+ cinema sejam? Um fórum onde o desa- com reuniões extraordinárias, comuni-
é político. Exigir que um festival seja cordo é possível ou uma cerimónia onde cados cautelosos e decisões “adminis-
“apolítico” é, na prática, exigir que evite tudo corre sem sobressaltos? A primeira trativas”. E quando damos por isso, já
o mundo real. opção é caótica, por vezes irritante. A não estamos a discutir cinema. Estamos
segunda pode tornar-se confortável e apenas a gerir silêncio.
Demitir uma directora para dar um sinal vazia.
de firmeza pode parecer uma solução Os festivais de cinema são, por defini-
rápida. Mas o efeito a médio prazo é Berlim sempre foi uma cidade de muros ção, lugares de risco. Se deixarem de o
outro: desconfiança internacional, auto- e de derrubes de muros. A cultura aju- ser, deixam de interessar. E nesse dia não
-censura programática, fuga de talentos. dou a derrubar alguns dos mais simbóli- haverá cancelamento mais eficaz do que
O cinema não fica sem casa. Muda-se cos. Seria um paradoxo cruel que come- o da irrelevância.

