Page 33 - Revista Metropolis nº128
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O MEU
URSO DE OURO
JOSÉ VIEIRA MENDES
MOSCAS
FERNANDO EIMBCKE
Entre distopias ansiosas, filmes-manifesto e exercícios de estilo que gritam “sou
importante”, houve um filme na Berlinale 2026 que fez exactamente o contrário:
falou baixo ou melhor, zumbiu: «Moscas», de Fernando Eimbcke, foi desses que
ficam nos olhos e nos ouvidos, mesmo que o palmarés não lhe tenha feito justiça.
Num festival onde muitas obras pareciam competir para ver quem sofria mais
alto, «Moscas» apostou na economia: poucos actores, um apartamento demasia-
do grande, um preto e branco rigoroso e uma senhora que odeia… moscas. Olga,
interpretada por uma extraordinária Teresita Sánchez, é uma reformada que vive
como quem cumpre um regulamento interno invisível: silêncio, Sudoku, portas
fechadas e zero envolvimento emocional. Até que, claro, a vida — essa entidade
inconveniente — a obriga a subalugar um quarto.
Entra em cena um pai ausente, um miúdo falador, uma cirurgia aos pés por pagar
e o hospital ali ao lado. Nada disto é particularmente original em termos narrati-
vos. Noutras mãos seria chantagem sentimental pronta a arrancar lágrimas. Mas
Eimbcke — o mesmo realizador de “Temporada de Patos” — filma como quem
desmonta um relógio suíço: com precisão, humor seco e uma ternura sem senti-
mentalismo.
O preto e branco não é fetiche estético. É depuração moral: limpa o excesso, afia o
gag e transforma o apartamento num tabuleiro geométrico onde cada movimen-
to conta. Há ecos de Chaplin e de um neorrealismo minimalista onde o absurdo
entra pela porta da frente e se instala à mesa.
E depois há o miúdo. Bastián Escobar, não-actor, daqueles que parecem descober-
tos por acaso e afinal são puro cinema. Quando a câmara desce ao nível dele, o
filme ganha outra respiração. O videojogo «Space Invaders» — referência directa
aos anos 80 em que a história se situa — funde-se com o quotidiano como metá-
fora discreta: sobreviver também é jogar. E, por vezes, perder faz parte.
O que mais impressiona em «Moscas» é a recusa do excesso. Não há música a em-
purrar emoções, nem discursos explicativos, nem catarse fabricada. Há humor,
secura e silêncio. E há uma ideia simples e quase radical: as pessoas mudam deva-
gar. E, às vezes, mudam apenas porque alguém ficou.
Num ano em que a competição da Berlinale 2026 apresentou filmes maiores, mais
ruidosos e mais ostensivamente “importantes”, este pequeno filme de Eimbcke
foi o que me pareceu mais honesto. Discreto, mas com um coração enorme. Da-
queles que nos acompanham para casa, como uma mosca persistente que já não
queremos expulsar.
Se a Berlinale é, felizmente, um festival mais preocupado com humanidade do
que com espectáculo, então o meu Urso de Ouro 2026 tem o tamanho de um
apartamento mexicano a preto e branco. E continua a fazer zzzzz no meu ouvido © KINOTITLÁN
durante muito tempo.

