Page 81 - Revista Metropolis nº128
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nome e palco próprio (Catherine De- ácido, malabarismos entre o agressivo um escritor exímio, capaz de resumir o
neuve, Fanny Ardant, Isabelle Huppert e a sátira, tendo a sexualidade quase Mundo com uma precisão quase cruel.
e Emmanuelle Béart) numa adaptação sempre como alvo principal. Daí, e tal- Ozon bebe dessa “falsa simplicidade”,
da peça de Robert Thomas; ou, por vez a sua órbita comum, o sexo surgir contempla-se nos temas de Camus e,
outro lado, um registo mais melodra- como transgressão, como desconstru- com uma única consoante de desvio,
mático, com secura de champanhe re- ção, como agressão, como conforto, faz do sexo a porta escancarada para
finado, em «O Tempo que Resta», onde como sedentarismo ou, quem sabe, a alma do seu Meursault: o condena-
coloca Melvil Poupaud no leito da mor- como o fim de todas as ‘coisas’. E o do à morte, o assassino de árabes sem
te, perante essa finitude que mais tar- sexo possui esse impacto; assim cer- motivo nem discórdia, passivo na vida,
de retomaria em «Tudo Correu Bem», camos o seu mais recente trabalho, inseguro na trajetória, mas para quem
sobre eutanásia e a morte dos privile- nada de despretensioso, é um facto, o coito se torna, por instantes, a expe-
giados com privilégio. Ozon é também já que a luz do sol branco argelino o riência de estar vivo como nunca esti-
dotado de um certo cinema burguês conduz ao romance de Albert Camus, vera. Talvez aí resida a força do cinema
sem nunca se encantar nem se pren- "O Estrangeiro", uma das obras-pri- de Ozon: por mais luas que possua, o
der à sua própria burguesia: refuta os mas literárias, escrita depurada e de sexo permanece a sua arte.
códigos e despacha-os com um olhar verbos economizados que denunciam hugo gomes

