Page 83 - Revista Metropolis nº128
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AMANTES CRIMINOSOS
(1999)
Tudo começa com um assassinato e acaba num conto
de fadas perverso. Em «Amantes Criminosos», François
Ozon pega em dois adolescentes entediados, dá-lhes
uma faca, um desejo mal resolvido e atira-os para a flo-
resta como quem reescreve os irmãos Grimm à luz de
néon. Alice (Natacha Régnier) não ama: manipula. Luc
(Jérémie Renier) não pensa: segue. E o pobre Saïd (Miki
Manojlovic) é apenas o dano colateral de uma geração
que confunde intensidade com identidade. Ozon filma o
crime como quem filma um capricho. Não há moral, não
há psicologia de manual, não há redenção para sossegar
consciências. Há, antes, um jogo cruel sobre poder, sexo
e fantasia, onde cada gesto banal — um batom, uma
carta mal escrita, uma faca — se transforma em deto-
nador. Quando surge a figura do “ogre”, meio lenhador,
meio predador, o filme troca o realismo juvenil por uma
fábula claustrofóbica digna de pesadelo. Irónico, provo-
cador e deliciosamente amoral, «Amantes Criminosos»
é Ozon em estado puro: cinema que prefere incomodar a
explicar, sugerir a justificar. Quem quiser lições de mo-
ral, que vá ao catecismo. Aqui há desejo, sangue e uma
gargalhada seca a ecoar na floresta. Era uma vez… na
floresta. josé vieira mendes
GOTAS DE ÁGUA SOBRE
PEDRAS ESCALDANTES (2000)
Observada por ordem cronológica ou filme a filme, mes-
mo sem qualquer ordenação “temática” ou “estética”, a
filmografia de François Ozon alimenta-se de perma-
nentes contrastes — neste caso através da adaptação
de uma peça de Rainer Werner Fassbinder (1945-1982),
cuja herança voltaria a contaminar o seu «Peter von
Kant» (2022). O ar formado por Léopold (Bernard Gi-
raudeau) e Franz (Malik Zidi) surge, assim, como sinto-
ma ambíguo de uma sexualidade que, afinal, em última
instância, não é estranha a uma exuberante teatralida-
de. O tratamento realmente teatral de elementos como
o cenário e o guarda-roupa não anula a sensação de es-
tarmos perante um universo marcado pelos impasses
muito concretos de uma degradada existência social —
o pano de fundo, convém sublinhar, é a Alemanha da
década de 1970. joão lopes
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