Page 84 - Revista Metropolis nº128
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SOB A AREIA (2000)




                                                              Um desaparecimento que tanto pode ser um afogamen-
                                                              to como uma recusa. Em «Sob a Areia», François Ozon
                                                              larga o sarcasmo  juvenil  e entra num  território mais
                                                              adulto, mas não menos perverso. Um casal burguês,
                                                              férias nas Landes, rotina instalada. Ele vai nadar. Ela
                                                              adormece. Ele nunca mais volta. Afogou-se? Fugiu? Ou
                                                              só existe agora na cabeça dela? Ozon transforma a dúvi-
                                                              da em método e filma Charlotte Rampling como quem
                                                              filma uma fenda: elegante por fora, a ruir por dentro.
                                                              Marie continua a pôr dois pratos na mesa, a falar com o
                                                              marido ausente, a circular pela praia como se o mundo
                                                              ainda obedecesse à lógica. E nós, cúmplices, começamos
                                                              a duvidar da própria realidade. Entre drama psicológi-
                                                              co e fantasma conjugal, Ozon nunca oferece respostas
                                                              terapêuticas. Prefere o desconforto à consolação. A bur-
                                                              guesia académica à volta — amante, amigos, sogra — é
                                                              apenas cenário para um luto que talvez não exista. «Sob
                                                              a Areia» é isso: um filme sobre a negação como forma
                                                              de sobrevivência e sobre como a ausência pode ser mais
                                                              presente do que qualquer corpo. josé vieira mendes






         A
         TIV   8 MULHERES (2002)



         C  Este filme podia ser apresentado assim: Catherine De-
         OSPE  Ardant, Virginie Ledoyen, Danielle Darrieux, Firmine
            neuve, Isabelle Huppert, Emmanuelle Béart, Fanny

            Richard, Ludivine Sagnier. Ponto final. Oito mulheres
            (mais um homem de que nunca veremos o rosto), um
         RETR  elenco invejável, oito actrizes que cumprem a cem por
            cento o papel que lhes foi confiado. Por uma questão de
            direitos, François Ozon não avançou para a reinterpre-
            tação da peça que deu origem ao argumento do clássi-
         ON   co «The Women», 1939, de George Cukor. No seu lugar,
            adaptou uma comédia dramática de contornos policiais,

         Z  intitulada «8 Femmes», de Robert Thomas. Situada nos
            anos 50, a intriga decorre no interior de uma mansão
         ANÇOIS O  repente, as oito mulheres próximas da vítima iniciam
            burguesa onde se reúnem oito personagens sobressal-
            tadas por um crime cometido sobre o dono da casa. De

            entre si o desencadear de disputas e suspeitas que pas-
            so a passo irão adensar o mistério na esperança de dis-
            simularem as suas razões e segredos. Se não fosse já
            suficiente para garantir o suspense, o humor subtil e o

            com oito segmentos musicais que adicionam a este fil-
         FR  fulgor geral da narrativa, pelo meio somos brindados
            me uma atmosfera melodramática de inegável impacto
            sonoro e visual. Se não for a obra-prima do realizador,
            não fica muito longe…! joão garção borges

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