Page 86 - Revista Metropolis nº128
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O TEMPO QUE RESTA (2005)
François Ozon, cada vez mais habituado à prolificidade,
procura ainda um registo próprio; contudo, é nas suas
“fases” que surge como realizador de verdadeiro inte-
resse, e «O Tempo que Resta», considerado um dos seus
trabalhos mais refinados, integra uma espécie de vénia
ao cinema almodovariano, já pressentida em «8 Mulhe-
res», aqui com Melvil Poupaud naquele que é frequente-
mente apontado como um dos seus melhores desempe-
nhos. A personagem descobre ter um cancro terminal
cujo tratamento será infrutífero (garante o médico), e
a decisão final passa por prosseguir com a vida, refle-
tindo-a, cometendo aquilo que antes não teria come-
tido, encontrando nos seus desencantamentos a força
necessária para viver até ao último suspiro. Filme algo
comiserador, é verdade, mas cuja burguesia instalada,
de forma surpreendente, o torna sincero, sábio como
um Pedro Almodóvar “sério” (distante do seu pastiche)
de um «Fala com Ela», por exemplo. Ozon voltaria a
repensar a morte e as formas dignas do ponto final da
existência em «Correu Tudo Bem». Merece ainda esprei-
tadela Jeanne Moreau, na sua pose de canto do cisne.
hugo gomes
A ANGEL - ENCANTO E
TIV SEDUÇÃO (2007)
C François Ozon adquire outro rumo na sua carreira com
OSPE época, resultado da adaptação do livro de Elizabeth
a realização de «Angel». Uma sátira melodramática de
Taylor, sobre a ascensão e queda de uma jovem rapari-
ga que ambiciona fama e fortuna através da sua escrita.
RETR Inspirado nos épicos romanescos dos anos 1930/1940,
o filme, na sua forma e conteúdo, tenta ser o mais fiel
a este tipo de cinema. É fundamental para que o regis-
to funcione nas nossas mentes que nos deixemos levar
ON para um universo faz de conta que roça por vezes o ab-
surdo. O drama anda de mãos dadas com a comédia; a
Z catadupa de acontecimentos na vida da protagonista é
típica destes registos, que mais parece um melodrama
ANÇOIS O moralistas ou alguma mensagem, é um épico suave de
de Bollywood, de tantos infortúnios que acontecem à
estrela da literatura pimba. O filme não tem pretensões
François Ozon. Dennis Lenoir, o diretor de fotografia,
recriou a atmosfera da época Edwardiana, enquanto
Pascaline Chavanne, responsável pelo guarda-roupa, e
Katia Wyszkop, encarregada da cenografia, se destaca-
nagens. Não é difícil viajar pelo mundo de Ozon e de
FR ram na concepção dos aspectos envolventes dos perso-
«Angel»; aliás, é algo divertido. Se tivermos na memória
os clássicos do género, o resultado não podia ser mais
excêntrico. jorge pinto
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