Page 184 - Revista Metropolis nº128
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MR. NOBODY
               AGAINST PUTIN



               TÍTULO ORIGINAL
               Mr. Nobody Against Putin
               REALIZAÇÃO
               Pavel Talankin, David Borenstein
               DOCUMENTÁRIO

               ORIGEM
               Rússia, Dinamarca
               DURAÇÃO
               90 min.
               ANO
               2025




















            É na sala de aula que começa a guerra e, por isso,   bandeiras, hinos, juramentos, marchas coreografadas.
            «Mr. Nobody Contra Putin» não é um documentário   Tudo aparentemente normal. Tudo cuidadosamente
            sobre bombas, mas sobre aquilo que vem antes delas.   filmado. Só que, à medida que o quotidiano de alunos
            O vencedor do Óscar de Melhor Documentário,       e professores avança, percebemos que aquela escola
            oferece uma visão tão ou mais perigosa do que filmar   é menos um espaço de aprendizagem e mais um
            trincheiras, tanques, mísseis ou destruição. Filma   laboratório ideológico. O que impressiona não é a
            crianças, o que torna, paradoxalmente, este filme muito   violência explícita. É a organização, a coreografia, a
            mais perturbador.                                 naturalidade com que tudo é feito e filmado. Miúdos
                                                              de dez anos a marchar com a mesma energia com
            O protagonista chama-se Pavel Talankin. Pasha para os   que decoram a tabuada. Crianças a repetir slogans
            miúdos. Professor primário numa escola de Karabash,   patrióticos como quem ensaia para a festa de Natal.
            cidade mineira perdida nos Urais, mais conhecida   Professores alinhados, uns por convicção, outros por
            pela poluição tóxica do que por qualquer impulso   medo. A escola, esse lugar onde se deveria ensinar
            revolucionário. Não é um dissidente profissional, não é   pensamento crítico, transforma-se num centro de
            jornalista perseguido, não é um oligarca arrependido. É   produção de obediência. Talankin filma com uma
            um professor. Um “ninguém”. E é precisamente aí que   ironia discreta, quase melancólica. Não há narração
            o filme acerta em cheio. Quando Vladimir Putin decidiu   omnisciente, não há especialistas a explicar o que já
            reforçar a chamada “educação patriótica” nas escolas   estamos a ver. Há apenas a rotina. E é na rotina que
            após a invasão da Ucrânia, a câmara de Talankin —   a propaganda entra. Não aos gritos ou com discursos
            inicialmente destinada a registar actividades escolares   inflamados, mas com cartazes coloridos e cerimónias
            banais — transformou-se numa arma involuntária:   “cívicas”. Entra no recreio, na sala de aula e, sobretudo,




    184   METROPOLIS MARÇO  2026
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