Page 185 - Revista Metropolis nº128
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na linguagem. E quando damos por isso, já moldou mas com peso real. A coragem aqui não é abstracta. Tem
gestos, silêncios e expectativas. consequências.
Ao longo do filme, a sala vai-se esvaziando. Alguns Num ano em que a categoria de documentário dos
alunos desaparecem porque as famílias são mobilizadas. Óscares parece particularmente politizada, «Mr.
Outros calam-se. Outros alinham. A guerra deixa de ser Nobody Contra Putin» lembra-nos algo simples: o
um tema distante e passa a ser um destino provável. E cinema pode ser resistência discreta. Não há explosões.
é aqui que o documentário deixa de ser apenas sobre a Há câmaras ligadas quando deviam estar desligadas e
Rússia, porque fala de qualquer sistema que perceba que perguntas silenciosas.
a batalha decisiva não se trava nas fronteiras, mas nas
escolas. O título é irónico. «Mr. Nobody». Um zé-ninguém. Mas
a História mostra-nos que os regimes temem mais os
Formalmente, o filme é imperfeito. Há sequências “ninguéns” do que os heróis oficiais. Porque os heróis
longas, uma estrutura quase diarística, uma montagem são previsíveis. Um professor com uma câmara, não.
que nem sempre procura o efeito “festival-friendly”.
Mas essa rugosidade é precisamente o que lhe dá No fim, o que fica não é apenas a denúncia de um
autenticidade. Não estamos perante um produto polido regime. É o retrato de uma geração apanhada numa
de estúdio. Estamos perante um professor que começou guerra que começou muito antes de os tanques
por cumprir ordens e acabou por resistir, filmando. Para cruzarem as fronteiras com a Ucrânia. Uma guerra pelas
que o filme existisse, Talankin teve de abandonar o país. mentes. E essa, gostemos ou não, não acontece só na
O exílio paira sobre a obra sem dramatismos excessivos, Rússia. JOSÉ VIEIRA MENDES
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