Page 188 - Revista Metropolis nº128
P. 188
NINO
TÍTULO ORIGINAL
Nino
REALIZAÇÃO
Pauline Loquès
ELENCO
Théodore Pellerin
William Lebghil
Salomé Dewaels
ORIGEM
França
DURAÇÃO
96 min.
ANO
2025
Primeira longa-metragem de Pauline Loquès, «Nino», Entretanto, o que iremos ver a seguir ao diagnóstico
2025, abre sobre o rosto do rapaz que dá nome ao hospitalar constitui de algum modo a linha sinuosa que
filme e, no plano próximo que o enquadra, o actor alimenta a muito frágil possibilidade de Nino recolher
Théodore Pellerin vai dando expressão (mais adiante os cacos da sua psique, para os juntar e reorganizar
dará corpo e alma) a alguém que na sequência de um de novo numa simbiose do seu querer espiritual e
exame médico de rotina não recebe necessariamente da sua anterior compleição física. Neste processo de
as melhores notícias. De início parece desorientado reestruturação mental e material irá cruzar-se com
com a burocracia do centro de saúde, com as uma série de personagens com quem partilha breves
marcações de consultas de que não se lembra, momentos de socialização na esperança de superar a
mas que o software do novo sistema informático perspectiva de um futuro algo incerto, personagens
(recentemente instalado e pour cause sujeito a e momentos muito diversos entre si, sendo o mais
pequenas convulsões) regista sem grande margem significativo (não obstante fugaz) a relação com a mãe
para dúvidas. Mas afinal qual a doença que apanhou viúva (interpretada por Jeanne Balibar). Tudo isto no
desprevenido o ainda jovem Nino? Trata-se do HPV período de um fim-de-semana prolongado durante o
(Vírus do Papiloma Humano). qual Nino irá celebrar, se assim se pode dizer, o seu
aniversário.
De repente, Nino percebe que dali para a frente irá
enfrentar a experiência nada agradável de viver com Mas nem sempre Nino encontra o caminho livre para
um cancro da garganta que, apesar do assombro que se manifestar plenamente junto dos outros, e nem
ainda desperta, pode ser curado. E quem ficou com sempre escapa a um quase determinismo fatalista
a responsabilidade de erguer essa personagem foi, na interacção com a realidade circundante do espaço
muito justamente, o galardoado pela Académie des urbano de Paris. Passam as horas e de forma mais ou
Césars com o prémio para Meilleur Espoir Masculin de menos palpável não consegue superar uma ou outra
2026. Na verdade, Théodore Pellerin consegue dar-nos contrariedade. Desconcertante a esse nível será o
a sensação muito credível de seguirmos o percurso facto de o vermos bem cedo perder as chaves de casa
volátil de um rapaz a quem as entranhas explodiram e, por isso mesmo, ficar impedido de lá entrar, e ainda
em mil estilhaços. mais desconcertante será a solução engendrada pelas
188 METROPOLIS MARÇO 2026

