Page 191 - Revista Metropolis nº128
P. 191
PHOTO BY LOGAN WHITE. COURTESY OF A24
e terrosos que criam uma atmosfera abafada e Mais do que um simples objeto narrativo, sugere a
austera, como se todo o universo visual estivesse existência de uma tradição intelectual alternativa,
envolto numa espécie de opressão claustrofóbica. ligada ao espírito crítico e ao pensamento
A cor surge apenas de forma esparsa e calculada, iluminista, que se cruza momentaneamente com a
funcionando como pequenos apontamentos que espiritualidade rigorosa do grupo. Nesse sentido,
quebram a monotonia cromática. Nas cenas do a referência à obra acrescenta uma camada de
barco, por exemplo, surgem azuis vivos e dourados leitura interessante, evocando o confronto entre
que introduzem um contraste subtil mas eficaz, diferentes formas de pensar o corpo, o desejo
acentuando o momento de esperança associado à e a liberdade humana. Para Anne Lee, porém,
travessia para o Novo Mundo. apenas a liberdade interessava, sendo o corpo e
o desejo realidades a expurgar. Segundo o filme,
Entre os episódios mais curiosos da narrativa esse repúdio estaria ligado à perda dos filhos, mas
encontra-se a cena em que surge o livro anónimo também ao que Freud designou por “cena primária”
“Thérèse Philosophe”. Conhecida pela mistura de (Urszene). A heroína não consegue processar o
erotismo e reflexão filosófica, a presença dessa ato sexual dos pais que presencia em criança e
obra libertina do século XVIII introduz um interpreta-o como uma forma de violência ou como
elemento inesperado no ambiente austero da um acontecimento misterioso e perturbador. Num
comunidade retratada. O livro funciona como registo clássico de leitura freudiana, esse momento
contraponto simbólico à disciplina moral e religiosa traumático determinaria a sua posterior aversão ao
que domina a vida dos seguidores de Anne Lee. sexo.
METROPOLIS MARÇO 2026 191

