Page 193 - Revista Metropolis nº128
P. 193
excessivamente teatrais e demasiado depuradas, cuidada e intelectualmente sugestiva, mas
denunciando um grau de elaboração e virtuosismo dramaticamente irregular. A solidez da proposta
técnico que contrasta com a simplicidade quase estética e o empenho da interpretação central
espontânea que se associa às danças da tradição contrastam com uma narrativa que hesita entre
Shaker. Essa estilização acaba por destoar da crueza o retrato histórico, a meditação espiritual e a
e do rigor histórico presentes nas restantes cenas. alegoria psicológica. Essa indecisão impede o
Em vez de surgirem como prolongamentos naturais filme de desenvolver plenamente as questões que
da experiência espiritual da comunidade, estes convoca: o conflito entre corpo e espírito, entre
momentos musicais tendem a destacar-se como desejo e redenção, entre liberdade individual
episódios autónomos, produzindo um certo efeito e disciplina comunitária. O resultado é um
de distanciamento no espectador. Assim, mais do objeto cinematográfico visualmente fascinante,
que momentos de elevação mística, acabam por mas que deixa a sensação de ter ficado aquém
funcionar como interrupções formais na narrativa, e do potencial dramático e filosófico da figura
o êxtase sensual que a realizadora pretendia sugerir extraordinária que procura retratar. Louvemos
raramente se torna plenamente perceptível. porém a ousadia da realizadora de, num tempo
de consumo rápido e fácil, nos ter oferecido
Em última análise, «O Testamento de Anne um filme exigente que obriga à reflexão.
Lee» permanece uma obra formalmente NUNO VAZ DE MOURA
METROPOLIS MARÇO 2026 193

