Page 92 - Revista Metropolis nº128
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CORREU TUDO BEM (2021)


                                                              Na base do argumento encontramos o livro homónimo
                                                              de Emmanuèle Bernheim (escritora, ensaísta e argu-
                                                              mentista de filmes do cineasta como «Sous le Sable»,
                                                              2000, «Swimming Pool», 2003 e «5X2», 2004). No fil-
                                                              me, Sophie Marceau representa o papel da filha de um
                                                              homem que, após sofrer um AVC, semi-paralisado na
                                                              cama de um hospital mas mais do que consciente de que
                                                              a partir dali viverá uma existência diminuída e forte-
                                                              mente dependente dos outros, prefere morrer. Mas não
                                                              o quer fazer a qualquer preço. Morrer, sim, mas com dig-
                                                              nidade, propondo a si próprio e aos mais próximos que o
                                                              apoiem na decisão de acabar os seus dias. No desenrolar
                                                              da acção e no pulsar da dialéctica familiar serão con-
                                                              frontadas posições, por vezes favoráveis e outras vezes
                                                              contrárias. Matar ou não matar passa a ser o principal
                                                              conflito dramático que sobressalta a narrativa. Filme
                                                              baseado em factos reais, sobre um assunto que devia ser
                                                              encarado e debatido com urgência, racionalidade, serie-
                                                              dade e humanidade. Eutanásia, sim ou não?
                                                              Duas grandes interpretações de André Dussollier e So-
                                                              phie Marceau, pai e filha na encruzilhada dos seus dile-
                                                              mas existenciais. joão garção borges





         A
         TIV   PETER VON KANT (2022)



         C  A partir de «As Lágrimas Amargas de Petra von Kant»,
         OSPE  um realizador egocêntrico e faz do melodrama uma sá-
            de Rainer Werner Fassbinder, Ozon troca a estilista por

            tira venenosa ao culto da celebridade e, talvez, a si pró-
            prio. Peter, vivido por Denis Ménochet, é um déspota
         RETR  sentimental: humilha o assistente, apaixona-se por um
            jovem aspirante a estrela e desmorona quando o brin-
            quedo ganha vida própria. O décor é kitsch, excessivo,
            deliciosamente artificial; os diálogos são punhais com
         ON   glitter. Isabelle Adjani diverte-se a brincar à diva, en-
            quanto o fantasma de Fassbinder paira sobre cada pla-

         Z  no. Ozon não tenta superar o original — seria suicídio
            artístico — prefere comentar, ironizar, assumir o ma-
         ANÇOIS O  lar de cinema. E a rir-se dele. josé vieira mendes
            neirismo. Resultado: um filme teatral, cruel e autoiróni-
            co sobre amor, poder e vaidade. No fundo, cinema a fa-









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