Page 90 - Revista Metropolis nº128
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FRANTZ (2016)
A primeira vez que François Ozon filmou a preto-e-
-branco foi para revisitar um clássico atípico de Ernst
Lubitsch, «Broken Lullaby» (1932), sobre um soldado
francês que vai à Alemanha pôr flores na campa de ou-
tro soldado morto durante a Primeira Guerra Mundial,
carregando consigo um segredo que não se sente capaz
de revelar aos pais do jovem alemão. Nesse filme de
Lubitsch, aquilo que move a personagem francesa é do
conhecimento do espectador desde o início, concentran-
do-se o drama no dilema do protagonista. Mas, para
Ozon, a construção do enigma importa: em «Frantz», o
ponto de vista é da noiva viúva (Paula Beer), que se apai-
xona pelo francês (Pierre Niney) – e talvez pelo mundo
dentro da sua cabeça –, permitindo um labor sensual e
encantatório do mistério, ou dos fantasmas que atra-
vessam esta experiência de luto. Estamos perante um
dos mais belos e requintados objetos da filmografia de
Ozon. inês n. lourenço
A
TIV O AMANTE DUPLO (2017)
C Mais do que um filme sobre gémeos é uma obra sobre a
OSPE da díade mal/bem. Livremente inspirado em “Lives of
ideia de duplicidade: de um corpo duplo, mas também
the Twins” de Joyce Carol Oates, acompanhamos Cloé
(uma muito exigente performance de Marine Vacth)
RETR numa viagem alucinante e extrema de auto-descober-
ta de uma identidade fraccionada, enquanto se envol-
ve com o “duplo amante” (Jérémie Renier). Um jogo de
espelhos sem pejo de mostrar a carne e as fronteiras
ON da sexualidade. Pela sua natureza, este thriller erótico
poderia facilmente resvalar para o gore, a obscenidade
Z ou voyeurismo, mas Ozon cobre tudo com um véu de
elegância e refinamento que o tornam, a um tempo, belo
ANÇOIS O
e suportável. nuno vaz de moura
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