Page 93 - Revista Metropolis nº128
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O CRIME É MEU (2023)
Baseado na peça homónima de George Berr e Louis
Verneuil, «Mon Crime», aposta na comédia e na rela-
ção entre dois mundos que muito devem um ao outro,
o Teatro e o Cinema. A acção decorre na Paris de 1934,
com uma incursão pela margem direita da cidade luz,
a comuna de Neuilly-sur-Seine. Presume-se desde cedo
que algo de grave aconteceu numa moradia art-deco de
onde, a seguir a uma confusão de gritos, veremos sair
uma mulher visivelmente perturbada. Esta jovem será
a protagonista de quem se irá falar. Na verdade, ela vai
procurar sobreviver a uma série de vicissitudes que a
obrigam a seguir por caminhos de que não se orgulha
(chega a pensar no suicídio), até ao momento da sua sur-
preendente redenção e consagração num processo judi-
cial que não podia ser mais bizarro e feliz, sobretudo
para o catapultar da sua carreira artística e consequente
inserção nos melhores círculos da sociedade burguesa.
Tudo numa era em que as crises, as greves e as convul-
sões sociais em França eram o pão nosso de cada dia.
A mesma peça fora anteriormente adaptada ao cinema,
«True Confession», 1937, de Wesley Ruggles, e «Cross
My Heart», 1946, de John Berry. Ainda a curiosa home-
nagem do realizador a «Mauvaise Graine», 1934, estreia
na realização de Billy Wilder. joão garção borges
QUANDO CHEGA O
OUTONO (2024)
Ozon em modo Chabrol? «Quando Chega o Outono» é
uma verdadeira delícia, que se vê com um sorrisinho
nos lábios e uma reserva de comoção no bolso. Numa
tranquila vivência de província, deparamos com duas
amigas – mulheres na casa dos 70 ou 80 anos –, cada
qual com as suas espinhas familiares. Uma delas, Mi-
chelle (Hélène Vincent), está ansiosa por receber o neto
nas férias de verão, como se se preparasse há muito para
esse momento, mas tudo muda quando, numa refeição
com a filha, a velha senhora deixa escapar um cogumelo
tóxico na sua receita, levantando suspeitas de que não
foi apenas um engano... A partir daqui, a linguagem do
policial de outono envolve-se com o drama de uma for-
ma ultra sugestiva, explorando as manifestações do in-
consciente sem abdicar da ternura e simplicidade deste
meio bucólico. Eis a prova límpida de que fazer um filme
com atrizes idosas pode ser do mais refrescante que há.
inês n. lourenço
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