Page 91 - Revista Metropolis nº128
P. 91
GRAÇAS A DEUS (2018)
De todos os filmes, franceses ou não, que já abordaram
os casos de abuso sexual no interior da Igreja Católica,
este «Grâce à Dieu» impõe-se como um dos mais elabo-
rados e contundentes — além de ser inspirado em per-
sonagens verídicas. Acima de tudo, François Ozon evita
a facilidade de encerrar o seu trabalho num discurso de
“protesto”, antes optando pelo intimismo de uma nar-
rativa que, afinal, mesmo com todas as perturbantes
singularidades da história que se conta, se mantém fiel
às intensidades clássicas do melodrama. Através de um
magnífico colectivo de actores, incluindo Melvil Pou-
paud, Denis Ménochet e Josiane Balasko, estamos, em
última instância, perante um retrato da decomposição
dos laços humanos, aqui através da manipulação de
ideais religiosos. Em resumo, um filme raro e precioso.
joão lopes
VERÃO DE 85 (2020)
Um amor de verão, com laivos de tragédia, num tempo
que o amor homossexual ainda não ousava dizer o seu
nome. Mas também um amor de adolescência quando
tudo é sentido de forma mais forte, em que o hoje dura
um verão e o verão, toda uma vida. Baseado no roman-
ce “Dance On My Grave” (1982) de Aidan Chambers e
rodado em 16 mm, este foi o filme que Ozon sempre
sonhou fazer. Temos uma obra que não problematiza o
amor homossexual em si, mas antes um teen movie so-
bre o amor em geral. Mas com um forte laivo nostálgico
que a a banda sonora acentua a par de uma inocência
e leveza que haveriam de terminar brevemente. Lem-
bremos que 1985 foi o ano em que Rock Hudson morre
vítima do SIDA e o mundo toma conhecimento dessa
terrível epidemia que iria mudar a forma como o amor
e a sexualidade foram e são vividas. nuno vaz de moura
METROPOLIS MARÇO 2026 91

