Page 112 - Revista Metropolis nº128
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não apenas provocação. Temos, então,   “nova” extremidade, mas sim continui-  por nenhum outro crítico ou académico:
            uma estética da corporeidade e da vul-  dade com o surrealismo francês, o cine-  as características históricas do momen-
            nerabilidade.                    ma de transgressão dos anos 1970 e uma   to em que surge e a relação com o que
                                             certa tradição literária francesa de Sade,   estava a acontecer nas artes plásticas.
            Quando, em 2011, é publicada a cole-  Bataille ou Genet. Ou seja, o termo pode   Nas duas décadas que viram morrer um
            tânea “The New Extremism in Cinema:   ser visto como uma mera simplificação   século e nascer outro, o mundo ociden-
            From France to Europe” (ed. Tanya Hore-  mediática de uma tradição cultural lon-  tal viveu um tempo de uma galopante
            ck e Tina Kendall, Edinburgh University   ga. Outros acusam uma heterogenei-  economia e uma relativa paz. O futuro
            Press), o termo expande-se e torna-se   dade excessiva que agrupa cineastas e   parecia garantido e confortável e o cien-
            numa categoria transnacional. Dois mo-  obras formalmente muito distintas e um   tista político Francis Fukuyama chegou a
            vimentos importantes ocorrem: uma   reducionismo temático que enfatiza vio-  vaticinar o fim da História: um futuro de
            desnacionalização e, de forma mais   lência e sexo, ignorando diferenças polí-  benesses económicas e o fim das guer-
            importante, uma reinterpretação ética:   ticas, estéticas e narrativas propondo o   ras. O pior mal da Europa parecia ser o
            em vez de mera provocação, o extremo   abandono do rótulo ou que seja usado   aborrecimento, o terrível  ennui. E era
            é visto como confrontação ética do es-  apenas como categoria historiográfica e   exactamente esse sentimento que nos
            pectador com o sofrimento, o desejo e a   não estética.           empurrava para a procura de emoções
            violência estrutural. O rótulo inicialmen-                        fortes no conforto seguro de uma sala
            te depreciativo é reconfigurado como   Discordo deste último ponto e penso   de cinema. (Algo que depressa acaba-
            ferramenta analítica. Esta interpretação   que este termo é, a um tempo, histórico   ria no mundo pós 11 de Setembro e da
            não está, ela mesma, livre de críticas. Al-  e estético. E isto pela relação com dois   crise económica de 2008.) Por seu turno,
            guns académicos defendem que não há   factores que ainda não vi mencionado   o carimbo  arthouse cinema legitimava


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