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O MONTE DOS VENDAVAIS: A DOMESTICAÇÃO DE UMA TRAGÉDIA
e a crueldade que mais tarde definem a romântico estilizado do que da brutali- Essa reformulação não torna «O Mon-
personagem. A vingança que estrutura dade social que sustenta o livro de Emily te dos Vendavais» (2026) irrelevante
grande parte da narrativa surge, assim, Brontë. enquanto adaptação, mas altera pro-
menos como capricho individual do que fundamente a natureza da experiência
como consequência de uma violência Uma transformação semelhante pode proposta. O filme de Emerald Fennell
estrutural que o romance nunca procura observar-se na forma como a paisagem encontra a sua identidade sobretudo no
suavizar. é utilizada. No romance, as charnecas domínio da estilização – na composição
não funcionam apenas como cenário, das imagens e na tentativa de reinscre-
Na adaptação de Emerald Fennell, essa mas como extensão do temperamen- ver o romance num imaginário emocio-
dimensão estrutural surge consideravel- to das próprias personagens. O espaço nal mais acessível ao público contempo-
mente atenuada. Heathcliff mantém a agreste de Wuthering Heights espelha râneo.
aura de figura deslocada, mas a narrati- a violência emocional que atravessa a
va privilegia sobretudo a intensidade da narrativa e reforça a sensação de mundo Nesse processo, porém, parte da vio-
ligação com Cathy, deslocando o conflito indomável onde as paixões não encon- lência moral e da complexidade social
para um registo mais emocional do que tram contenção social. Na adaptação que tornam o livro de Emily Brontë tão
social. A escolha de Jacob Elordi contribui de Fennell, essa dimensão orgânica da perturbador acabam por diluir-se. En-
para essa reformulação: em vez de um paisagem cede lugar a uma abordagem tre a fidelidade e a reinvenção, Fennell
corpo verdadeiramente estranho ao uni- mais concetual. As charnecas perma- opta claramente pela segunda: o resul-
verso que o rodeia, Heathcliff surge como necem visualmente presentes, mas são tado funciona menos como tradução
presença magnetizante e desejável, o que frequentemente enquadradas como direta do romance e mais como objeto
facilita a empatia do espectador, mas re- superfície estética, compondo imagens autónomo dentro da sua própria filmo-
duz o peso da marginalização que molda de forte estilização que privilegiam at- grafia, sedutor enquanto exercício esté-
a personagem no romance. O resultado mosfera e contemplação. A natureza tico, mas inevitavelmente mais distante
não elimina a obsessão que atravessa a deixa assim de agir como força narrativa da brutalidade que continua a tornar O
história, mas altera o seu enquadramen- e passa a integrar sobretudo a lógica vi- Monte dos Vendavais uma obra singular
to, aproximando-a mais de um drama sual que estrutura o filme. da literatura.

